Sapatão é só para os íntimos: preconceito contra mulheres lésbicas e bissexuais no cuidado à saúde

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Amanda Gomes Pereira, Departamento de Medicina Preventiva, Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.

Mariana Arantes Nasser, Departamento de Medicina Preventiva, Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.

Arthur Chioro, Departamento de Medicina Preventiva, Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.

Mulheres lésbicas e bissexuais, em virtude da discriminação e preconceito ainda presentes, enfrentam iniquidades e vulnerabilidades que tornam sua situação de saúde bastante complexa. Ao longo das últimas duas décadas, diante de um longo processo de lutas de movimentos sociais, políticas e marcos normativos foram instituídos. Contudo, a despeito de importantes conquistas, ainda é evidente a invisibilidade da homossexualidade de mulheres nas práticas de saúde.

É importante colocarmos em discussão distinções que se apresentam quando a identidade lésbica e bissexual é atravessada por outros marcadores sociais da diferença, como, por exemplo, condição socioeconômica e raça/etnia. Tais questões remetem à reflexão sobre especificidades no cuidado e o mapeamento de necessidades de saúde, dentre as quais elegemos neste estudo o vínculo (CECÍLIO, 2012). O vínculo é uma necessidade ainda pouco explorada e que tem implicações no cuidado à saúde, pois pode favorecer o acesso e o caminho para a equidade. Contudo, também pode ser permeado pela discriminação e, por isso, até negado às usuárias lésbicas e bissexuais.

Nosso objetivo no estudo “Sapatão” é só para os íntimos: vínculo no cuidado de mulheres lésbicas e bissexuais foi, portanto, compreender os modos de construção de vínculo no cuidado à saúde de mulheres lésbicas e bissexuais, a partir da análise de marcadores sociais da diferença e participação em movimentos sociais. Ele foi realizado por pesquisadores do Programa de Programa de Saúde Coletiva da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo entre 2020 e 2021 e publicado no periódico Interface: Comunicação, Saúde, Educação em 2022.

Esta pesquisa é de abordagem qualitativa, do qual participaram 14 mulheres lésbicas e bissexuais, residentes na cidade de São Paulo, as quais dividimos em 2 grupos, um com 6 militantes em movimentos sociais e outro com 8 não militantes. Buscamos garantir dentro dos dois grupos a diversidade em relação a marcadores sociais da diferença. Utilizamos como instrumento para coleta e produção de dados a entrevista semiestruturada, as quais foram realizadas presencialmente e online. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Federal de São Paulo.

Os resultados e discussão foram sistematizados em 5 grandes eixos.

O primeiro – “Identidade e reconhecimento de si” – aborda as diferenças subjetivas identificadas entre as mulheres que participam de movimentos sociais e as que não participam. A participação no movimento social parece ter um papel importante na construção de um certo jeito de viver a identidade, trazendo conhecimento, consciência e significados que as projetam de maneira mais ativa na reivindicação de seu cuidado em saúde.

Em “Preconceitos e discriminação”, trouxemos os marcadores sociais da diferença como raça, classe, território, além da estética corporal, como atravessadores que muitas vezes potencializam as vivências de preconceito e discriminação e que precisam ser compreendidos de forma articulada, a partir da análise de como as condições estruturais impactam cada sujeito singularmente.

No eixo seguinte apresentamos as “Abordagens e estratégias no uso dos serviços de saúde” adotadas pelas mulheres a partir de modos distintos de percepção de (des)cuidado e de possibilidades encontradas para evitar situações violentas e desrespeitosas. O quarto eixo – “(In)visibilização da sexualidade na busca do cuidado” – está conectado ao anterior, mas nele buscamos destacar a estratégia de visibilizar a sexualidade como mais adotada por mulheres militantes em movimentos sociais e a de invisibilizar por não militantes.

Por fim, em “Vínculo e aceitação”, discutimos que a construção de vínculo entre mulheres lésbicas e bissexuais e profissionais de saúde passa pela lógica da aceitação de suas identidades e sexualidades. Considerando isso, identificamos relações potentes entre alguns perfis específicos de profissionais que compactuam com valores morais não opressores e de valorização da diversidade. Entre as militantes, ganhou destaque o estabelecimento de vínculo com profissionais de saúde que são companheiras de militância.

Ao longo do estudo identificamos elementos que dificultam e que facilitam a construção do vínculo com mulheres lésbicas e bissexuais. Tais informações podem indicar caminhos para o enfrentamento de discursos que culminam no distanciamento e para a construção de discursos e práticas que aproximam, possibilitando o enfrentamento de situações de vulnerabilidade. Conhecer os desafios, estratégias e caminhos trilhados por essas mulheres também é relevante para que haja investimento dos serviços e organização de processos que favoreçam esse cuidado integral.

 

Humanas.Blog


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