Há luz quando se entende que não há ‘cura gay’

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Por Priscilla de Paula

Li esses dias a história de um pastor que se diz ex-gay. É incomum? Sim. Mas se ele garante, então, é possível. Afinal, ser humano é uma caixinha de surpresas. Não tem receita. O problema é as pessoas acharem que a partir de um ou outro caso em que o desejo ou em que a consumação do desejo deixa de ser por alguém do mesmo sexo, a tal ‘cura gay’ exista. Pior ainda: é como se homossexualidade fosse doença.

Bom, a gente sabe que tem pessoas que parecem que retrocederam no tempo. Como dizem educadores parentais que dividem conhecimento gratuitamente nas redes, parece que vivem no passado, na época do fogão à lenha, do telegrama e da ficha no orelhão. Aquele tempo em que acreditava-se que bater em criança como método pra educação era inteligente e que ser gay era uma patologia.

Vou contar a história do Pedro, um menino que foi muito desejado pelos pais que o adotaram aos dois dias de vida. Pedro sempre foi doce, carinhoso, do bem. Por volta dos seis anos, percebeu que gostava mais da amizade com as meninas do que com os meninos. Lá pelos sete, ouviu um colega dizer: “Quem gosta de menino é viado!” A partir daí, ele diz que entendeu que era diferente. A autodescoberta se tornou segredo absoluto e Pedro passou a sofrer sozinho, sem contar pra ninguém. Por um lado deu certo porque, pra sociedade, ele não “parecia gay”. Nem a família suspeitava.

Mas aí, quando chegou a adolescência, os problemas com essa questão se agravaram. Pedro se sentia culpado, não queria decepcionar os pais. A angústia quase fez esse menino se matar, sem se dar conta, de tanto desgosto consigo mesmo. Os pais, que sempre o amaram incondicionalmente, só queriam vê-lo bem, com saúde mental e física. Buscaram ajuda profissional e, juntos, enfrentaram uma longa batalha para resgatar esse filho e fazê-lo acreditar que, apesar das dificuldades e do preconceito, a vida vale a pena.

Pedro deu sorte, porque o mundo está cheio de pais e mães que projetam nos filhos aquilo que eles querem pra si. E quando as coisas não saem como o desejado, alguns enlouquecem a ponto de ter a coragem de dizer, por exemplo, que preferem que um filho morra “do que apareça com um bigodudo por aí”.

Me explica: como é que alguém que ama um filho consegue ser tão desumano e egoísta com um pensamento desses?

Há quase trinta anos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou a homossexualidade da lista internacional de doenças. E sabe o que acontece com homossexuais que não se aceitam e que e se sentem pressionados a mudar a orientação sexual na marra em algum tipo de terapia de reversão? As taxas de suicídio crescem.

Esta semana, o STF decidiu derrubar a autorização da Justiça que permitia que psicólogos atendessem gays e lésbicas em busca de mudança da orientação sexual. “Não cabe a profissionais da Psicologia no Brasil o oferecimento de qualquer tipo de prática de reversão sexual, uma vez que a homossexualidade não é patologia, doença ou desvio.”, declarou o Conselho Federal de Psicologia.

Não é patologia. Não é doença. Não é desvio! Você é gay e quer deixar de ser? Considera pecado? Tem o todo o direito de buscar um caminho único. Mas há luz quando se entende que não há ‘cura gay’.

O Pedro é um moço de sorte. Ele nunca foi marginalizado pela família. E, de tão amado, compreendeu que pode ser como é, desde que seja justo, honesto e do bem. Aprendeu a se amar, a se cuidar e voltou a sonhar. Eu, que sou irmã dele, só comemoro. Pela saúde dele, da minha mãe e do meu padrasto que, agora, respiram aliviados e desejam ter vida longa ao lado dos filhos.

Os especialistas nos ensinam que quando decidimos ter filhos precisamos de um projeto pra eles, por mais bobo que seja. Mas também temos de aguentar se o filho não for como a gente imagina, por mais difícil que seja. Afinal, nunca teremos o controle disso.

Pena que quem está no comando do país só atrapalhe. Veja bem: o Brasil, que já é apontado pejorativamente com um país que promove o turismo sexual agora tem como principal porta-voz o próprio presidente. “Se quiser fazer sexo com mulher fique à vontade.” (Fique à vontade?! Senhor!). “Agora, não pode ficar conhecido como paraíso do mundo gay aqui dentro. Temos as famílias!”, afirmou Bolsonaro em encontro com jornalistas, do qual o Estado participou. Quem foi que tentou transformar o Brasil num paraíso gay, gente? Quanta paranoia!

E as famílias das vítimas – meninas e jovens – exploradas sexualmente?! Isso sim é realidade. Será que o governo tá preocupado em fazer alguma coisa?

Não acabou. Por recomendação do presidente, a campanha do Banco do Brasil que representava a diversidade racial e sexual brasileira saiu do ar. Você pode achar que, de novo, é só pra “preservar as famílias”. Mas a verdade é que, aos poucos, a intolerância vai mostrando as suas garras.

Se a diferença começa dentro de nós, que a gente seja capaz de ensinar os nossos filhos sobre aceitação, pra poder viver num país em que cada um de nós é respeitado do jeitinho que é. E que ninguém precise voltar a viver escondido no armário, em pleno século 21.

ESTADÃO

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