Gloria Groove: ‘A música LGBT tem dado passos largos em um país que anda para trás’. Confira a entrevista

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Principal atração do aniversário de 16 anos do Clube Metrópole, a drag queen fala sobre hip hop, infância, parceria com Léo Santana e a ascensão das drags na indústria musical

Daniel Garcia tem 23 anos e é artista desde os quatro. Foi figurinha marcada do quadro Jovens talentos do Programa Raul Gil, trabalhou como vocalista do Balão Mágico na formação de 2006, integrou o elenco da novela Bicho do mato na Record, dublou séries como Hannah Montana e Power Rangers. Toda essa trajetória o preparou para ser Gloria Groove, uma drag queens mais famosas do país. No Recife, ela se apresenta no aniversário de 16 anos do Clube Metrópole neste sábado (21), a partir das 22h. “Recife é um dos nossos melhores públicos desde sempre. Sabemos que vamos chegar na boate e tudo vai estremecer”, diz. A artista adianta que homenageará uma pernambucana em questão: “Só não posso contar quem é. Vocês vão saber”.
Ascensão

Em 2017, Groove estremeceu as matrizes masculinas do rap ao estabelecer pontes entre a cultura hip hop e a comunidade LGBT com seu primeiro álbum, O proceder – Dona, Gloriosa Império foram alguns sucessos. Agora, ela aposta em um estilo mais pop. O funk Bumbum de ouro, lançado neste ano, se tornou um dos hits do carnaval e faz a drag conquistar um público mais amplo. Ao que tudo indica, a abrangência de sua arte será ainda maior com Arrasta, uma parceria com Léo Santana. O encontro dos artistas ocorreu no dia 12 de abril, em Salvador (BA), e a música ganhará um clipe em breve – a previsão de lançamento é para maio. Assim, Groove entra para o “hall” das queens que cresceram a ponto de colaborar com nomes do mainstream nacional – assim como Pabllo Vittar com Lucas Lucco (Paraíso) ou Aretuza Lovi com Solange (Arrependida).

 
ENTREVISTA / Gloria Groove, cantora
 
Seu primeiro disco mescla rap com pop. O hip hop é um movimento bastante masculino e heterossexual. Por que apostar nele?
Gosto de hip hop desde criança. Sempre me inspirei nas referências masculinas do rap, principalmente do rap de fora, mas não vou mentir que, para mim, a possibilidade de fazer rap se abriu depois de ver mulheres fazendo rap, como Lil Kim, Missy Elliot e Nick Minaj. Aqui no Brasil eu gostava de Flora Matos e Karol Conka muito antes de ‘bombar’. Me libertou muito ver mulheres tendo poder e posicionamento, eu era bem jovem e isso me mostrou na prática que o rap não pertence a ninguém. Pertence a que tiver disposição para fazer e colocar no papel uma vivência, uma coisa sincera, com atitude.
Você sentiu resistência ou críticas da cena rap?
Na verdade, nunca me intitulei como uma drag rapper, tanto que cheguei na cena cantando. Eu sempre achei que fosse uma drag cantora, mas quando eu troquei o segundo verso de Dona por um ‘flow’, ganhei a etiqueta de drag rapper. Isso me ajudou a ganhar destaque entre as drags, que em maioria estavam dentro de um movimento mais pop (já muito consolidado na comunidade LGBT). Apesar disso, eu não sou uma pessoa que investe em penetrar a bolha do rap ou ser um desses caras que tentam ser donos do gênero. O rap veio junto e eu decidi agregar para meu trabalho. Existe uma certa resistência desta frente masculina sim, deslegitimando ou nem validando minha música como rap somente porque tem um heterossexual que ‘pode desempenhar melhor esse papel’.
O público LGBT não é tão próximo do hip hop. Você nunca sentiu receio de não atingir o seu nicho?
O gosto dos LGBTs se tornou algo muito plural. A entrada de personalidades como Nick Minaj, Azealia Banks e Cardi B na cultura pop criou uma aceitação bem maior do gênero. Os gays possuem mais facilidade para se identificar com a Minaj do que os Migos, por exemplo, que são rappers homofóbicos. Desde que comecei a entender mais questões de gênero e sexualidade, compreendi que tem muita coisa problemática nesse cenário rap, muitas vezes misógino e homofóbico e hostil. Acredito que, aqui no Brasil, meu trabalho estabeleceu uma ponte entre a cultura LGBT e o hip hop. O proceder foi muito legal por isso. Sempre ouvia alguém falando ‘ah, eu não costumava ouvir rap, mas esse CD da Gloria é muito legal’.
 
Seu maior sucesso, Bumbum de Ouro, conseguiu ter um alcance bem maior por ser um funk. Você pretende continuar nessa linha?
Nesse momento, eu acho que devo investir em um trabalho mais pop. Ter um trabalho mais grande, com notoriedade e na boca do povo. Mesmo assim, a Gloria de Império, Dona e Gloriosa nunca vai deixar de existir. Aquilo que eu era só vai aprender a coexistir com todas as outras Glorias que eu posso ser. Independente do que eu fizer, o importante é que as pessoas continuem vendo a Gloria Groove ali. Enquanto eu conseguir me colocar como artista, vocês vão ver a Gloria cantando.
 
Você vai lançar Arrasta, música com o Léo Santana. O que podemos esperar dela?
É uma faixa como Bumbum de ouro. Produzimos no Rio de Janeiro com os Catioros, que fazem músicas para a Anitta, Pabllo Vittar e Aretuza Lovi. O legal é que eles sempre tentam traçar um paralelo entre um estilo e outro. Quando eu escrevi, idealizei um funk paulistano, mas quando levei para o estúdio virou um pagodão incrível.
Como foi gravar com o Leo?
O Léo sempre foi meu sonho, eu era até meio acanhada de falar com ele, achava que ele não iria me responder. Conversei com minha assessora e com minha equipe e resolvemos que eu deveria tentar. Mandei uma DM [mensagem direta do Instagram]e ele foi um anjo comigo desde o momento que respondeu até sua saída do estúdio em Salvador. Ter um tratamento desses de um artista grande é incrível. E pensar que é um artista homem, do axé, que teria vários motivos para não querer se envolver comigo ou com o meu trabalho. Ele veio at´ e mim através do que sou. Vou falar mais: o tempo que passei com ele dentro do estúdio foi um dos momentos que mais me senti respeitada como artista até hoje. Ele conseguiu me enxergar como uma artista de verdade. Só tenho a agradecer.
Devido à participação do Léo, a música certamente terá um alcance maior. Como se sente com isso?
Não só o Leo está dando essa força incrível, como vários artistas regravaram Bumbum de ouro, a exemplo do Psirico, que sou fã desde criança. É uma coisa fora de sério, inacreditável. As drags brasileiras estão sacudindo o mundo, estamos sendo vistas pelo mundo. E essa relação com outros artistas é importante porque é através desse pessoal que vou construir uma relação com o público que não é meu público. Uma família, uma pessoa mais tradicional que vai ver que eu tenho ‘algum talento’ e vai me respeitar como artista. Acho que isso é um importante ponto de desconstrução. ‘Olha lá, ela está cantando com fulano. O fulano está cantando a música dela’. Isso é muito legal.
E qual a importância disso para a comunidade LGBT?
Eu tenho 23 anos. Na infância, nunca tive um ídolo gay para me inspirar. Eu não tive isso, fosse na TV ou na rádio. Consigo imaginar como é para as crianças e adolescentes LGBT essa possibilidade de enxergar as drags pelo espectro do sucesso, em um mundo em que as drag queens são estrelas da música, artisticamente respeitadas. Eu costumo até ter ciúme (risos). Crianças de 13, 14 anos olham para a gente e veem identificação. Isso para mim vale o mundo. Caramba, olha como as coisas estão mudando, mesmo que queiram puxar a gente para baixo. A música LGBT tem dado passos largos em um país que anda para trás.
Você é artista desde criança. Isso influenciou na sua decisão de ser drag?
Sim. Quando olho para trás e vejo tudo que fiz, eu estava me preparando para isso, para me encontrar como Gloria Groove. Foi como uma coisa planejada pelo universo. Tive a sorte e o privilégio de viver em uma época de uma cultura que está em ascensão. No momento que eu vi que uma drag poderia cantar, aquilo abriu muitas caixinhas na minha mente, principalmente para compor. Eu não me sentia à vontade para me expressar como Daniel. Depois da Gloria tudo fluiu muito. Ser drag transformou a minha percepção sobre a minha arte.
E como o Daniel criança se sentiria vendo a Gloria Groove?
(Risos). Ele nem tinha ideia do que era drag. Acho que ele teria até um pouco de medo. Nós temos medo do desconhecido. Se falassem que um dia ele seria uma drag cantora e famosa, ele iria achar tudo uma grande bobagem, uma grande mentira. Até um tempo atrás eu acharia isso uma grande bobagem. Mas olha tudo o que eu consegui! Olha o que eu encontrei! Eu gosto de ter a consciência de que uso tudo isso como uma ferramenta para encontrar meu trabalho. Um dia alguém falou para mim: ‘\’Você não é uma drag cantora, e sim uma cantora que faz drag’. Isso faz muito sentido. A música entrou na minha vida muito antes da arte drag. Essa responsabilidade de cantar sempre tive e sempre vou ter, mas hoje me olho no espelho e entendo muito bem o que eu sou. Isso é muito legal.

SERVIÇO

Aniversário de 16 anos da Metrópole, com Gloria Groove e MC Elvis
Onde: Club Metrópoe (Rua das Ninfas, 125, Boa Vista)
Quando: neste sábado (21), às 22h
Quanto: R$ 40 (inteira). As demais entradas estão esgotadas. Vendas no www.sympla.com.br/metropole-16-anos__262821
http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2018/04/21/internas_viver,749385/gloria-groove-a-musica-lgbt-tem-dado-passos-largos-em-um-pais-que-an.shtml
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