Super poder da diversidade: heróis gays provocam ira de conservadores

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Quem é o Superman? O estereótipo de um herói hétero branco, cabelos lisos, super força, patriota, sem defeitos e moldado perfeitamente ao padrão de uma sociedade machista. Acontece que um dos principais heróis fictícios não é um pássaro, tampouco um avião. Ele também é bissexual. Não o Clark, mas o seu filho, Jon Kent, herdeiro da capa do pai. Logo, o novo Superman, sim. Ele possui as mesmas forças do Clark Kent, já assumiu o protagonismo na Terra, mas com um poder especial: a diversidade. E isso tem sido motivo de fúria de alguns nerds que vestiram a carapuça de vilão e prometem até boicotar a DC Comics, empresa criadora dos heróis. Pelo visto o novo Superman terá muito trabalho pela frente.

Assim que a DC anunciou que o novo Superman tem uma relação amorosa com o ativista e hacker Jay Nakamura, curiosamente fã de Lois Lane, mãe de Jon, choveram comentários homofóbicos sobre mais um passo tão importante para a representatividade LGBTQIA+ no universo dos heróis. A revistinha que conta esta relação só deve ser publicada em novembro, nos Estados Unidos, sem previsão de estreia no Brasil. Mesmo assim, alguns nerds conservadores mostraram sua repulsa nas redes sociais. “Eu não vou ler, pois gosto de ler quando consigo me imaginar no personagem e um personagem que dá a bun… não me representa”, disse um leitor de quadrinhos no perfil NerdDicionário, com 25 mil seguidores.

Nerd conservador e homofóbico? Parece um paradoxo, mas existe e não é pouco. Como as pessoas que sempre pertenceram a um grupo marginalizado podem ser tão preconceituosas virou até objeto de pesquisa acadêmica. Até final dos anos 90, os nerds estiveram na periferia da cultura. Também sofriam preconceitos com seus óculos fundo de garrafa, por serem CDF e contrários aos padrões másculos de homens que adoravam esportes e eram populares na escola, como num filme de Sessão da Tarde. Agora, um Superman bissexual abala esta turma como uma kryptonita. Por quê?

“Eu venho há algum tempo tentando entender como esta cultura nerd é vetor de tanta violência em relação a gênero e sexualidade. Hoje temos a popularização da cultura nerd. O nerd foi saindo deste espaço periférico da cultura e vindo mais para o centro. Aí a gente tem um movimento político de homens héteros estarem sendo criticados por vozes feministas, LGBTs, ativistas que começaram a ganhar mais espaço também. Então este nerd hétero começou a usar esta lógica de oprimidos e opressores para se vender como oprimido. Nossa sociedade nunca abraçou a discussão sobre gênero e sexualidade no âmbito pedagógico e isso inclui este mundo nerd também”, disse Christian Gonzatti, mestre em comunicação e com doutorado em cultura pop. Ele estuda sobre diversidade e preconceito nerd.

Nas redes sociais, o nerd conservador trata a diversidade no universo dos heróis como lacração e mero interesse mercadológico.  O interesse de fato existe, mas isso não tem nada de negativo. Muito pelo contrário. “A gente vê este avanço não porque as indústrias culturais ficaram boazinhas e resolveram trazer narrativas com mulheres, LGBTs e negros protagonistas, mas pelo fato de a sociedade ter mudado em alguma medida, após anos e anos de ativismo e militância. Isso gerou um corpo social mais aberto em relação a estas temáticas. Isso gera interesse em consumir estas narrativas como um termômetro das transformações sociais”, completa Gonzatti, que tem o perfil Diversidade Nerd (@diversidadenerd_) no Instagram, com mais de 22 mil seguidores.

Símbolo hétero
As mudanças significativas com o Superman possuem um significado especial, pois elas desmistificam a figura do homem hétero perfeito para os padrões conservadores. Ela não cabe mais e novas versões do Homem de Aço trazem esta questão à tona. Além de Jon Kent assumir o manto do herói e sua bissexualidade, o mundo nerd se prepara para um avanço significativo do herói, que ganhará vida em Calvin Ellis, um sobrevivente do planeta Kripton que também vai assumir a capa. Ele é negro e será protagonista de uma série que a HBO Max vai produzir, ainda sem data de estreia. Para alguns roteiristas de quadrinhos, diversificar a figura do Superman é um avanço na cultura pop e a desconstrução dos padrões conservadores.

“Quando me perguntaram se eu queria escrever um novo Superman com uma primeira edição para o Universo DC, eu sabia que substituir o Clark com outro cara hétero e branco seria uma oportunidade perdida. Eu sempre disse que todo mundo precisa de heróis e todo mundo merece ver a si mesmo em seus heróis. Hoje, o Superman, o herói mais forte do planeta, está se assumindo”, disse Tom Taylor, escritor do novo herói de capa, à revista gamer IGN.  Taylor também foi responsável por outro amor homoafetivo nos quadrinhos: Arlequina e Hera Venenosa, também da DC Comics. “Arlequina é a primeira personagem que eu pude escrever sendo abertamente bissexual. E eu me senti honrado de ter a chance de escrever o casamento da Arlequina e Hera Venenosa em Injustice: Ano Zero”, completa.

O problema é que nem todo mundo curtiu o Superman engajado na diversidade. Quem assistia As Novas Aventuras do Superman na Globo deve se lembrar do ator que interpretou a série, Dean Cain. O ator, assim como alguns nerds, acha que a bissexualidade de Jon Kent não passa de lacração. Em entrevista num programa televisivo americano, Cain alega que o herói tem muito mais coisa para fazer do que se preocupar com diversidade. “Eles (roteiristas da DC) disseram que é uma nova direção ousada, eu digo que eles estão se aproveitando do movimento. Eles estão falando sobre como Jon deve lutar contra a mudança climática e a deportação de refugiados, e ele está namorando um hacktivista – o que quer que seja um hacktivista. Por que não o fazem lutar contra as injustiças que criaram os refugiados cuja deportação ele está protestando? Isso seria corajoso, eu leria isso”, disse.

Fredric Wertham
A perseguição contra a diversidade nos quadrinhos e no mundo dos heróis é antiga e tem um nome que causa calafrios em roteiristas e heróis: o médico  psiquiatra Fredric Wertham. Em 1947, ele combateu a cultura pop como o Thanos enfrenta os Vingadores, alegando que as histórias em quadrinhos eram pervertidas sexualmente e estragavam ‘nossas’ crianças. Discurso bem semelhante dos dias atuais. Ele alegava que apenas delinquentes liam HQs. Os conservadores da época abraçaram as teorias e revistinhas em quadrinhos foram queimadas nas ruas norte-americanas como forma de protesto das famílias tradicionais. Quase os heróis entraram em extinção.

Na década de 50, Wertham ainda escreveu um livro sobre sedução dos quadrinhos, principalmente no quesito sexualidade. O nome da obra é Sedução do Inocente e o autor se utiliza de cartas de pessoas e relatos de pacientes, principalmente crianças da época, que se diziam influenciadas por quadrinhos. Os alvos principais: Batman e Robin. O psiquiatra foi o primeiro a afirmar que os dois personagens eram gays e influenciavam as crianças. No seu livro, o médico alega que um paciente adolescente abusou sexualmente de uma criança mais nova, se imaginando no mundo do Batman e Robin.

Foi um rebuliço e até o Congresso dos Estados Unidos obrigou que as revistinhas fossem direcionadas apenas para crianças, deixando o mundo dos heróis caricatos e rasos, com histórias que beiravam a comédia, como  podemos ver nas séries antigas e infantis do Batman, que precisou até de uma namorada para dizer que não tinha nada com o Robin. As revistinhas deveriam ter um selo de aprovação do governo para que fossem vendidas.

Hoje existem estudos que comprovam a manipulação de dados do médico Fredric Wertham. Ele teria recebido pouco mais de uma dúzia de cartas reclamando sobre as revistinhas de heróis e houve modificação em diversos depoimentos dos pacientes, como o menino citado acima, que nem lia o Batman. Curiosamente, anos depois Fredric confessou ser fã de histórias em quadrinhos. Vai entender…

A diversidade ainda está longe de vencer esta guerra. O Superman bissexual gerou inconformismo em políticos aqui no Brasil, que condenaram a nova versão do herói. Nem a Bahia escapou. O deputado estadual do PDT, pastor Samuel Júnior, criticou Jon no seu perfil do Instagram. “A heteronormatividade, padrão cristão, bíblico e biológico, vem sendo combatida com muita força, sobretudo na cultura pop e nos produtos de mídia voltados para crianças e adolescentes. As forças das trevas têm se levantado com muita força contra o padrão divino para impor como normal aquilo que a Bíblia diz que é abominável”, disse o político, que curiosamente estampou o beijo gay entre Jon e Jay no seu perfil.

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O novo Superman está longe de ser o único (ou último) a questionar a importância da diversidade. Em 2019, o beijo gay entre Hulkling e Wiccano foi censurado na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, pelo então prefeito Marcelo Crivella. Outros tantos heróis também saíram do armário e transformaram o mundo dos quadrinhos mais inclusivo. O Lanterna Verde, que chegou a ser casado com uma mulher, se casou com um homem e adotou duas crianças. O novo Capitão América, Aaron Fischer, é um jovem gay da periferia. Deadpool, um dos heróis mais polêmicos (e adorados) deste universo, disse que é pansexual e gosta de tudo que pulsa. É um caminho sem volta.

“Toda a vida nós tivemos os super-heróis como homens másculos, altos, fortes e héteros. O imaginário do nerd que integra alguma letra da comunidade LGBTQIA+ foi construído em cima de imagens que não poderíamos seguir. Um herói bissexual não é menos forte ou poderoso em nada, pelo contrário, além de salvar vidas nos quadrinhos e nas telas, ele vai salvar aqui fora, no mundo real também”, comemora o jornalista e nerd Ruan Fernandes, que nunca se viu representado nas histórias em quadrinhos. Agora está. Para o alto e avante!

Super-heróis da diversidade:

Capitão América:

Não é bem Steve Rogers, mas a Marvel anunciou um novo herói que vai usar o escudo do Capitão. Aaron Fischer é um jovem gay da periferia norte-americana que ganhará super poderes e será também uma referência para a camada pobre do país. Ele será conhecido também como o Capitão América da Ferrovia, que é onde moradores de rua se abrigam nos Estados Unidos.

Piscina morta:

O herói mais anti-herói da Marvel se define como pansexual. Em uma de suas histórias, ele diz se relacionar com tudo que tem algum pulso. Ele é apaixonado por uma mulher, mas costuma mostrar interesse em Colossus, um integrante dos X-Men, além do Homem-Aranha.

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Hulkling e Wiccano:

Versões adolescentes que lembram Hulk e Thor, ambos são integrantes dos Jovens Vingadores, já se casaram (duas vezes) e foram censurados na vida real, aqui no Brasil. O quadrinho em que eles se beijam foi impedido de ser vendido na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, em 2019, pelo prefeito Marcelo Crivella.

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Estrela Polar:

Mutante canadense, assim como Wolverine, Estrela Polar foi um dos primeiros heróis declaradamente gay nos quadrinhos. A edição foi em 1992. Em 2012, na revista dos X-Men, ele também faz história. É o primeiro casamento gay desenhado nas HQs. Muita gente compareceu neste casamento, como seu conterrâneo e símbolo do machão alpha, Wolverine.

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Arlequina e Hera Venenosa

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O Coringa é coisa do passado. Ex-companheira do principal vilão do Batman, Arlequina se casou com Hera Venenosa na edição Injustice 2, da DC Comics, de 2017. As duas vilãs se conheceram num assalto, viraram amigas e se apaixonaram. Este amor também foi para a animação. Um desenho da DC, lançado no ano passado, também oficializou a união.

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Mulher Maravilha

Pense comigo, inocente. Diana, filha de Zeus, vive durante anos na ilha Themyscira, onde vivem as guerreiras amazonas. Roteiristas da maior heroína do mundo dos quadrinhos já afirmaram que ela teve relações com guerreiras da ilha antes de conhecer Greg Rucka, que cai na ilha por engano e se torna seu par romântico.

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lanterna Verde

O Lanterna Verde Alan Scott surgiu nos quadrinhos na década de 60 casado com uma mulher. Contudo, no reboot da DC Comics, ele assume ser gay, se casa com seu parceiro e tem dois filhos. Ele não esconde que já teve relação com outras mulheres, com medo de preconceitos, mas que resolveu assumir abertamente sua orientação sexual.

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Robin

Este surpreendeu um total de zero pessoas. Tim Drake, o terceiro garoto prodígio nos quadrinhos (o primeiro adotou outro nome e o segundo morreu nas mãos do Coringa) assumiu ser gay este ano, após 80 anos de espera. Ele terá uma relação com o amigo Bernard. Será que o homem-morcego vai sair do armário também?

 

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