Projetos residenciais LGBTI+: “Não se trata de segregação social, mas de criar locais inclusivos”

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As residências de estudantes são um segmento onde faria “todo o sentido” investir, segundo João Passos, consultor imobiliário na Remax e presidente da Variações.

Autores: Leonor Santos, Tânia Ferreira

Cohousing, coliving, coworking ou residências de estudantes. Tudo segmentos alternativos do imobiliário que, à semelhança das residências séniores, têm atraído a atenção dos investidores. Dentro deles, existem outros, adaptados às necessidades das comunidades, de que são exemplo os projetos residenciais LGBTI+ – ainda sem presença em Portugal, mas já uma realidade internacional. Para João Passos, consultor imobiliário na Remax e presidente da Variações – Associação de Comércio e Turismo LGTI de Portugal, a existência de espaços onde a orientação sexual e a identidade e expressão de género possam ser vividas, de forma segura, é muito importante. “Não se trata de criar uma segregação social, mas sim a criação de locais inclusivos onde cada pessoa possa viver livremente a sua essência, sem medo de retaliação ou discriminação”, diz em entrevista ao idealista/news, baseado em casos internacionais.

“A diversidade enriquece uma comunidade, seja local ou não. Uma empresa, um bairro, uma cidade, um país, são mais ricos se tiverem a sua população bem representada e cuidada. O medo da não aceitação e o receio de represálias obrigam muitas vezes as pessoas da comunidade LGBTI+ a viver uma vida dupla, em parte de mentira. E isto infelizmente é um entrave para qualquer ser humano, impedindo-o de atingir todo o seu potencial enquanto membro da sociedade, tornando-a mais pobre”, começa por explicar.

O medo da não aceitação e o receio de represálias obrigam muitas vezes as pessoas da comunidade LGBTI+ a viver uma vida dupla, em parte de mentira.

Segundo o consultor imobiliário, os centros de diversidade, os projetos de cohousing (condomínios fechados de moradias e/ou apartamentos), coliving (partilha duma residência, por duas ou mais pessoas, com uso de zonas comuns, como cozinhas e salas de estar), coworking (partilha de escritórios/espaços de trabalho) e qualquer outro projeto desta natureza permitem precisamente criar espaços seguros, “tão importantes para o bem-estar e para o desenvolvimento pessoal e da própria comunidade, pelos laços que se estabelecem”.

Residências de estudantes LGBTI+ “fariam todo o sentido”

O presidente da Variações lembra que “os anos da universidade são muitas vezes os anos do ‘coming out’ e da descoberta pessoal”. As residências de estudantes direcionadas para este público fariam, por isso, “todo o sentido”,  especialmente “se tivermos em conta que quem vem para as residências de estudantes são pessoas deslocadas, que muitas vezes não têm laços de família ou amizade nas cidades para onde se mudam”.

Foto de Ketut Subiyanto no Pexels
Foto de Ketut Subiyanto no Pexels

“Os sentimentos de insegurança nestes espaços residenciais levam ao isolamento social – um dos maiores problemas que afetam a saúde mental de muitos jovens, sobretudo LGBTI+. Uma vez mais, tanto os privados como o setor público têm muito trabalho a fazer nesta área”, defende.

Atualmente, há vários projetos internacionais a dar cartas neste segmento, com as próprias universidades a dar passos nesse sentido. É o caso da University of Limerick, na Irlanda, que em 2019 lançou, com sucesso, a iniciativa ‘Rainbow Housing’ para estudantes LGBTI+ que vivem no campus.

O alojamento ‘Rainbow’, tal se pode ler na página da universidade, é para estudantes que desejam morar juntos numa casa/apartamento que apoie lésbicas, gays, bissexuais, transgéneros, queer, intersexo, isto é, que atende a todas as identidades sexuais e de género. Em 2019, e depois do anúncio, a manager do ‘Campus Life Services’ da universidade adiantava que a iniciativa já tinha recebido 200 inscrições de mais de 30 países diferentes.

Foto de Ketut Subiyanto no Pexels
Foto de Ketut Subiyanto no Pexels

“A Rainbow Housing não é sobre autossegregação. Trata-se de dar aos alunos LGBTI+ acesso a uma base de apoio que lhes permita sentir confiança, orgulho. Para aquelas pessoas LGBTI+ que optam por não morar em casas LGBTI+, e haverá muitas, as habitações arco-íris são igualmente importantes. Oferecem visibilidade para a comunidade no campus e, em muitos casos, para alunos que vêm de escolas onde se sentiram culturalmente invisíveis, pode ser muito impactante”, indica a responsável, Carol-Jane Shanley.

Enquanto isso, nos EUA, há já mesmo um ‘Campus Pride Index’. Desde 2007 que é a maior ferramenta nacional de benchmark de campus LGBTI+ Friendly. Este índice é construído com base nas políticas, programas e práticas das universidades e pertence ao Campus Pride (fundada em 2001), a principal organização nacional sem fins lucrativos para líderes estudantis e grupos de campus que trabalham para criar ambientes de aprendizagem mais seguros para as comunidades LGBTI+.

Foto de Armin Rimoldi no Pexels
Foto de Armin Rimoldi no Pexels

A University of Southern California (USC), por exemplo, oferece ‘Trans-friendly Student Housing’, isto é, alojamento que é ‘gender inclusive’ – “uma opção de habitação que permite aos alunos da USC morar com colegas de quarto, independentemente da identidade de género ou sexo atribuído no nascimento”, lê-se na página da universidade. Tem também um ‘Rainbow Floor’, uma comunidade residencial de interesse especial para estudantes LGBTI+, bem como residência única para estudantes transgénero/ queer que desejem ter um quarto individual dentro das Comunidades Residenciais da Universidade.

Em 2018, a UR Pride lançou um programa chamado ‘Colorful Campus House’ para estudantes LGBTI+. A University of Regina, no Canadá, associou-se à iniciativa e alocou vários quartos para esse propósito. Tal como explica a UR Pride, este ‘Colourful Campus House’ não é especificamente para LGBTI+, “é para todos aqueles que estão interessados ​​em viver num espaço onde todas as pessoas são respeitadas, não importa a sua orientação sexual ou sexo ou status intersexual”. “Alguns alunos LGBTI+ sentem-se seguros num alojamento tradicional, e outros não. Esta é apenas uma opção”, frisa a inciativa.

Foto de Ivan Samkov no Pexels
Foto de Ivan Samkov no Pexels

Produtos imobiliários LGBTI+ em Portugal

Em Portugal, existem alguns produtos imobiliários dedicados a este segmento, mas ainda são muito poucos. Existem algumas unidades hoteleiras pequenas, como o The Late Birds (Lisboa e em breve Porto), o Villa 3 Caparica (Almada) e a Casa Risa House & Spa (Algarve) – todos produtos turísticos mais orientados para homens gay, segundo João Passos.

De acordo com o consultor, “existe interesse no aumento desta oferta (até por parte de grupos hoteleiros de maior dimensão), mas nada de concreto para já”. “Claro que existirão outros locais LGBTI+ friendly, mas a oferta específica ainda é muito reduzida. Especialmente se pensarmos na comunidade lésbica, por exemplo, para a qual a existência deste tipo de serviços é quase nula”, acrescenta.

A ILGA Portugal, a maior associação de defesa dos direitos da comunidade em Portugal, possui um pequeno Centro LGBTI+ em Lisboa, na Rua dos Fanqueiros, com atividades culturais, de convívio e serviços de apoio. “Uma das grandes reivindicações por parte das associações LGBTI+ com maior representatividade (ILGA, Variações, rede ex aequo, AMPLOS, entre outras) é precisamente a criação de um espaço comum, um Centro de Diversidade, que pudesse acolher estas e outras associações/coletivos, em Lisboa, que não têm sede física e permanente”, explica, adiantando existem ainda projetos para criação de centros comunitários noutros pontos do país mas que muitas vezes, “tal como acontece em Lisboa, são as próprias instituições políticas que causam entraves na criação destes espaços”.

Foto de Ketut Subiyanto en Pexels
Foto de Ketut Subiyanto en Pexels

Imobiliário LGBTI+ continua em franca expansão

Nos últimos anos, Portugal tem-se posicionado como um dos melhores destinos para reformados de muitos países, fruto da sua segurança, custo de vida, e outros fatores. “Com o crescente aumento de partidos de extrema-direita e da polarização política em muitos países (Europa, EUA, Brasil, etc) acho que Portugal poderá posicionar-se ainda mais como uma opção segura”, considera o consultor.

João Passos recorda ainda que Portugal distingue-se por ter a legislação mais avançada em termos mundiais na proteção da comunidade LGBTI+. Aparece, de resto, no 4º lugar no Rainbow Map – o relatório europeu anual da ILGA-Europe que classifica e analisa a situação jurídica e política das pessoas LGBTI+ em 49 países europeus.

Na sua opinião, os programas como os Vistos Gold (Autorização de Residência por Investimento) e RNH (Residentes Não Habituais) são outro fator atrativo, para continuar a dinamizar o investimento imobiliário em diferentes segmentos.

“Acredito que, tanto do ponto de vista dos clientes nacionais, como dos internacionais, a comunidade LGBTI+ vai continuar a representar uma importante fatia dos clientes que procuram os meus serviços de consultoria imobiliária. Portugal (cada vez mais visto como um todo, e não só Lisboa, Porto e Algarve) reúne uma série de predicados que, saibamos todos mantê-los, melhorá-los e promovê-los, asseguram um futuro promissor em termos de oportunidades de investimento, nacional e estrangeiro”, remata.

Idealista

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