‘Me assumi mulher transgênero aos 50 anos, depois de ter um enfarte’

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Durante décadas, Letícia Lanz se apresentou ao mundo como Geraldo Eustáquio. Só quando se viu na UTI entre a vida e a morte entendeu que precisava abandonar sua vida segura – e miserável – e assumir o que sempre foi

Depoimento a Kellen Rodrigues

“Nasci em uma família católica extremamente religiosa em Belo Horizonte. Recebi o mesmo nome do meu pai, Geraldo, como era comum naquela época. Na infância, nos anos 1950, nunca me identifiquei com o modelo de homem – não queria saber de carrinho, bola de futebol, nem torcer para o Galo. Queria mesmo brincar de boneca, pura e simplesmente.

Eu achava lindos os sapatos da minha mãe, me encantava ver o salto alto, olhava as roupas das minhas primas e aquele sim era, para mim, um mundo maravilhoso. Só que eu não tinha o passaporte para entrar ali. ‘Isso é coisa do capeta’, me diziam quando eu perguntava por que não podia brincar de boneca. ‘Deus não quis’ era outra das explicações estapafúrdias que eu ouvia. Há 70 anos, qualquer coisa que fugisse à norma de conduta estabelecida pela sociedade era considerada pecado.

Na escola, eu não queria ficar com os meninos, mas não podia brincar com as meninas, era horrível. Sentia uma profunda solidão, um eterno isolamento. Tudo que queria era pertencer a um grupo, mas onde eu me reconhecia não era legitimada e com aquele onde deveria me reconhecer não tinha a menor afinidade. Esse foi o meu calvário durante toda a infância. Tudo na minha vida era repressão. Cada vez que eu manifestava um desejo de usar saia, por exemplo, parecia que estava sujeitando minha família a algum tipo de atentado, todo mundo enlouquecia.

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Me lembro que, lá pelos 7 ou 8 anos, eu já invadia o armário da minha mãe. Por causa disso tomei várias surras. Gostava muito das meias de seda dela, que naquela época eram caras, usava todas escondido. Mas sempre puxava algum fio e minha mãe descobria, era um drama. Ela nunca compreendeu a minha realidade.

Fui a primeira de seis filhos. Em seguida veio minha irmã, que morreu com uma semana de vida, quando eu tinha 2 anos. Isso marcou profundamente os meus pais. Depois, eles tiveram mais quatro meninos. Muitas vezes na terapia disseram que sou assim por vontade do meu pai e da minha mãe de repor a filha que perderam, mas não acredito nisso.

“Sentia uma profunda solidão, um eterno isolamento. Tudo que queria era pertencer a um grupo”

Letícia Lanz

Uma vez, quando eu tinha 17 anos, fomos passar férias no Espírito Santo e eu voltei uns dias antes para estudar para o vestibular. Sozinha em casa, me pus à vontade. Um dia eu estava lá bem montadinha quando vejo a chave mexer na porta. Era meu pai. Não deu tempo de me trocar e ele me viu assim, com roupas de mulher. Ele apenas anunciou que à noite iríamos sair. Ele era muito carinhoso, uma pessoa muito sensível e entendia como eu era, mas se preocupava.

Naquela época, os pais tinham o costume de levar os filhos para casas de prostituição para que tivessem sua primeira vez, o popular ‘desmame’. Temi que esse fosse seu plano. Ele de fato me levou para a zona de prostituição da cidade, mas apenas me mostrou um travesti na rua. ‘É isso que você quer ser?’ Disse que eu viveria no máximo cinco anos e seria morta por alguma bala, ‘porque essas pessoas não têm acesso nenhum na sociedade’. Foi muito duro ouvir isso e saber que ele só estava tentando fazer o melhor por mim. Mas o conflito maior ainda estava por vir.

Apesar de me identificar como mulher, eu descobri na adolescência que gostava de mulher. Essa é outra questão que eles nos impõem: se você nasceu macho, é classificado como homem e tem que gostar de mulher; se você nasceu fêmea, é classificada como mulher e tem que gostar de homem. Então, na minha cabeça, havia esse jogo. Se me identificava como mulher, devia ser homossexual e ter desejo por homens. Mas não tinha.

Matéria completa Revista Marie Claire

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