Decisão do Vaticano sobre casamento homossexual divide opiniões

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por Inês Moreira Santos – RTP

Embora o Papa Francisco tenha expressado, anteriormente, que não se opunha ao casamento homossexual, o Vaticano esclareceu, na segunda-feira, que a Igreja não dispõe, nem pode dispor, do poder de abençoar uniões de pessoas do mesmo sexo. Esta tomada de posição por parte da Santa Sé está a dividir opiniões: se por um lado há quem considere que isto é regressar “à estaca zero”, por outro há quem critique o apoio de Francisco, alegando “contradizer os ensinamentos da Igreja”.

Num documentário recente sobre o papa Francisco realizado pelo russo Evgeny Afineevsky, o pontífice argentino afirmou que “os homossexuais têm direito a ter uma família”.

“O que deveria haver é uma lei da união civil, assim eles estão legalmente cobertos”, uma citação que fez manchetes em todo o mundo, provocando críticas da ala mais conservadora da Igreja.

Mas o Vaticano anunciou, na segunda-feira, que não podem ser abençoadas uniões entre pessoas do mesmo sexo. Segundo uma nota oficial divulgada pela Congregação para a Doutrina da Fé, um dos órgãos responsáveis por estabelecer diretrizes para os católicos, “Deus não pode abençoar o pecado”.

Esta decisão é vista como uma vitória da ala conservadora da Igreja Católica.

Assinado pelo prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, o cardeal Luis Ladaria, o esclarecimento divulgado pelo Vaticano surge na sequência de algumas dúvidas sobre a matéria em círculos eclesiásticos.
“Não é lícito conceder uma bênção a relacionamentos, ou mesmo casais estáveis, que impliquem uma prática sexual fora do casamento (ou seja, fora da união indissolúvel de um homem e uma mulher, aberta, por si só, à transmissão da vida), como é o caso das uniões entre pessoas do mesmo sexo”, escreveu a Congregação para a Doutrina da Fé.
A resposta da Congregação foi aprovada pelo Papa e reconhece, contudo, a existência “de elementos positivos” nas uniões entre pessoas do mesmo sexo, mas frisa que não pode haver lugar a bênção, “pois os elementos positivos existem no contexto de uma união não ordenada no plano do Criador”.

“A declaração de ilegalidade das bênçãos das uniões entre pessoas do mesmo sexo não é, portanto, e não quer ser, uma discriminação injusta, mas sim reivindicar a verdade do rito litúrgico e do que corresponde profundamente à essência dos sacramentos, como a Igreja os entende”, refere a congregação. “Não há base para assimilar ou estabelecer analogias, nem mesmo remotas, entre as uniões homossexuais e o plano de Deus para o casamento e a família”, acrescenta o documento emitido pelo Vaticano.

O Vaticano reitera, ainda assim, o apoio aos homossexuais que vivem de acordo com a doutrina cristã.
Este esclarecimento surgiu perante pressões para que fosse institucionalizada uma prática já corrente em alguns países – é o caso dos Estados Unidos e da Alemanha, onde muitos sacerdotes abençoam uniões entre homossexuais, apesar de não serem casamentos pela Igreja.

Já em 2020 o Vaticano viu-se forçado a falar do tema depois de um documentário revelar afirmações do papa que pareciam apoiar as uniões homossexuais. A Santa Sé esclareceu, na altura, que Francisco se referiu a proteções legais e não a uma aprovação da Igreja.

Decisão do Vaticano é regresso “à estaca zero”
A decisão do Vaticano de considerar a união entre pessoas do mesmo sexo um pecado que a Igreja Católica não pode abençoar não surpreendeu a comunidade LGBTQ+ católica nos Estados Unidos, mas foi classificada como um regresso “à estaca zero”.

A diretora executiva da organização não-governamental (ONG) DignityUSA, que luta pelos direitos da comunidade LGBTQ+ católica, Marianne Duddy-Burke disse à Associated Press (AP) que a organização que lidera tem elementos, casais do mesmo sexo, que estão juntos há décadas, um exemplo da perseverança do amor face à rejeição das famílias.

“O facto de a nossa igreja ao seu mais alto nível não reconhecer a nenhum nível qualquer tipo de bênção a estes casais é apenas trágico”, acrescentou.

Em consonância com a responsável da DignityUSA, Ross Murray, que supervisiona os assuntos de índole religiosa do grupo de defesa dos direitos LGBTQ+ GLAAD, disse que a inclusão “explícita de pecado” na declaração do Vaticano faz com que a defesa pelos direitos desta comunidade “volte à estaca zero”.

“Ter o pecado explicitamente incluído nesta declaração leva-nos de volta à estaca zero”.

Murray lamentou ainda: “Termos a capacidade de viver as nossas vidas plena e livremente ainda é visto como uma afronta à Igreja ou, pior ainda, uma afronta a Deus, que nos criou, nos conhece e nos ama”.

Já Francis DeBernardo, diretor executivo do New Ways Ministry, que defende uma maior aceitação dos homossexuais pela Igreja, previu que a posição do Vaticano seria ignorada, inclusive por alguns clérigos católicos.

“Os católicos reconhecem a santidade do amor entre casais comprometidos do mesmo sexo e reconhecem esse amor como divinamente inspirado e divinamente apoiado e, portanto, cumpre os padrões para ser abençoado”, disse num comunicado, citado pela AP.

Algumas celebridades também recorreram às redes sociais para expressar a sua deceção com a decisão do Vaticano, aprovada pelo Papa Francisco.

“Enquanto graduado de uma escola secundária católica, estou profundamente triste com esta retórica arcaica e nem um pouco surpreendido. A boa notícia? Ainda estou casado e feliz e não preciso que o papa reconheça o amor que existe na minha família”, escreveu no Twitter Jesse Tyler Ferguson, estrela da série “Modern Family”.

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