“Transexualidade não é doença”, diz médico sobre transição de gênero

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Alexandre Saadeh é psiquiatra. Começou seu trabalho no Projeto Sexualidade (ProSex) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo(IPqHCFMUSP), criado em 1993 no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas em conjunto com a médica Carmita Abdo. Na época, diz ele, já havia alguns pacientes transexuais, mas muito pouco podia ser feito para ajudá-los. Desde 2010 ele coordena o Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual (AMTIGOS), do mesmo Instituto, tornando-se uma das principais autoridades brasileiras na área da transexualidade. Sua equipe já atendeu milhares de adultos e mais de 250 crianças e adolescentes que não se identificam com o seu sexo biológico.

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No início, só era atendida a população adulta. Porém, o médico começou a perceber que mais de 99% da população transexual adulta dizia que desde a infância se sentia diferente das outras crianças. Foi então que decidiu que o ambulatório abriria suas portas para as pessoas de todas as idades. Hoje, o AMTIGOS dedica-se apenas ao acompanhamento de crianças, adolescentes e termina o acompanhamento dos últimos adultos.

Saadeh é categórico ao afirmar que a transexualidade não é uma doença e, tampouco uma perversão ou um modismo. A pessoa não “vira” trans. Ela nasce assim. “É uma incongruência de gênero”, diz ele. As pesquisas científicas vem avançando bastante nesta área.

Por que os médicos não podiam ajudar as pessoas transexuais no começo dos anos 1990?

É que somente em 1997 o Conselho Federal de Medicina baixou uma resolução aprovando que essas pessoas passassem a ser atendidas pelos médicos em termos endocrinológicos, psiquiátricos e cirúrgicos, e de maneira experimental. A partir daquele momento, os transexuais começaram a procurar o Hospital das Clínicas da USP, e logo, foi preciso montar um serviço para atendê-los. O projeto acabou se tornando a minha tese de doutorado.

Cinco anos depois, em 2002, o CFM baixou uma nova resolução, liberando todo o atendimento para as mulheres transexuais, mas mantendo qualquer tratamento para os homens transexuais como experimental. Somente em 2010 a resolução foi refeita e liberou o atendimento integral para homens e mulheres trans. A única condição que continua experimental é a neofaloplastia, a construção de um neofalo, ou seja, um pênis. Só hospitais-escolas ligados a universidades, e hospitais públicos ligados a pesquisas podem fazer esta cirurgia.

E existe alguma nova resolução em vista?

O Conselho Federal de Medicina se reúne  quase todos os meses para discutir uma nova resolução. Faço parte da comissão, porque os integrantes pensam ser importante a discussão e possível inclusão de crianças e adolescentes. Esta é uma nova realidade, que não existia. E são três grupos completamente diferentes: crianças, adolescentes e adultos. Para os adultos, hoje já está tudo preestabelecido, funcionando. As pessoas já podem mudar seu nome (o STF autorizou agora, não precisa de laudo, o que é ótimo, porque essa questão não tem nada a ver com medicina ou saúde; mas sim com questões burocráticas e do direito). Agora, para fazer as cirurgias ainda precisa de um aval psiquiátrico, e de uma equipe de saúde. É preciso ter o diagnóstico de transexualidade.

Diagnóstico? Então transexualidade é uma doença?

Não, um diagnóstico não significa que a pessoa está doente. Mas acontece que eu, como médico, preciso justificar o porquê da necessidade das cirurgias e procedimentos. Sem o diagnóstico vira um tratamento estético, uma plástica. E essa questão não é estética, não é plástica. É uma questão fundamental para a vida dessas pessoas. A transexualidade é uma incongruência de gênero. E precisa ser  tratada como diagnóstico médico. Transtorno não é sinônimo de doença, mas as pessoas confundem. Tem que ter um diagnóstico, caso contrário não vai poder tomar hormônio, não vai poder fazer cirurgia. E quem está apto a fazer esse diagnóstico geralmente é o psiquiatra, que se dedica ao assunto.

A ciência já explica a transexualidade?

Existem bases biológicas, baseadas em pesquisas científicas, que indicam tendências da condição transgênero desde a primeira infância. Isso ajuda a entender por que crianças pequenas de três a quatro anos de idade já apresentam essa questão. Não existe ainda uma causa comprovada para essa inadequação entre o cérebro das pessoas trans e o sexo biológico que elas apresentam ao nascer. O que se sabe é que, durante a gestação, a identidade feminina ou masculina é formada no cérebro do bebê depois do desenvolvimento dos órgãos sexuais. No caso dos transgêneros, existe uma hipótese científica de que essa identidade não esteja em sintonia com o órgão sexual. A genitália se desenvolve para um lado e o cérebro para o outro. Isso vai se dar por influência de alguns hormônios e algumas substâncias que podem estar circulando pela placenta e pelo cordão umbilical. E aí esse cérebro feminino numa genitália masculina, ou ao contrário, cérebro masculino numa genitália feminina, pode explicar a questão da transexualidade.

Caderno Nós

Foto: Arte DC

Como se dá o processo de aceitação de uma pessoa trans?

A falta de identidade com o gênero biológico gera consequências para o desenvolvimento do indivíduo desde os primeiros sinais de transexualidade. O processo de aceitação de seu corpo e de sua realidade perante o mundo é bastante complexo e pode gerar traumas psicológicos. Cada pessoa trans tem seu próprio tempo de compreensão de sua identidade e de se aceitar como tal. A aceitação, inclusive, é um dos pontos mais delicados do processo. É comum haver um auto-preconceito. Pessoas transexuais muitas vezes se veem como monstros. O preconceito social contra a comunidade trans também não é novidade. Mas ainda se fala muito pouco sobre seus efeitos. A principal questão são os assassinatos e agressões sofridas por essa população. A falta de aceitação do corpo biológico, a confusão hormonal causada pelo tratamento informal e, principalmente, a não-aceitação social são os principais responsáveis pela depressão que atinge até 60% das pessoas trans no mundo todo.

O que as pessoas trans podes fazer para adequar seu corpo à sua identidade de gênero?

Estas pessoas sentem necessidade de adequar o corpo, não é só um desejo, uma vontade. É uma necessidade, para que elas possam se reconhecer. Infelizmente, a grande maioria das pessoas trans no Brasil realiza seu tratamento de adequação de gênero fora do sistema de saúde. Muitas mulheres trans tomam hormônios sem qualquer supervisão médica. Pior, muitas delas passam por cirurgias de implantação de próteses de silicone de baixa qualidade e sofrem deformações e infecções severas, além do uso do silicone industrial. Há algumas pessoas trans que não suportam o corpo e o órgão genital com que vieram ao mundo. Para eles ou elas, é urgente fazer a mudança de sexo. Injetam hormônios ou silicone e fazem cirurgias fora do Brasil, a baixo custo. A vivência de mudanças corporais é fundamental para o bem-estar da população transexual. A coisa mais importante para um homem trans, por exemplo, é a mastectomia. Tirar as mamas. Porque é o que mostra para a sociedade que você tem um traço feminino. Esse processo cirúrgico é fundamental. Já para as mulheres trans, a primeira cirurgia costuma ser a de colocação das próteses de silicone nas mamas.

Como é o atendimento das crianças no ambulatório do Hospital das Clínicas?

Quando os pais marcam a triagem aqui no ambulatório, eles estão muito angustiados. E, geralmente já falaram com alguém, um psicólogo, um pediatra, até mesmo um pastor ou padre. Não resolveu, não se convenceram e vêm buscar um especialista na área para trocar uma ideia. Passam pela triagem e os menores são atendidos numa sala cheia de brinquedos, onde são cercados de muita atenção. Hoje o ambulatório tem cerca de 250 pacientes com menos de 18 anos de idade. Eles são acompanhados por psicólogos, psiquiatras, profissionais de diversas áreas. Também fazemos intervenções na escolas para explicar o fenômeno e facilitar o trabalho dos educadores. Não tem relação com a Teoria Queer (a chamada ideologia de gênero), mas sim servir de facilitador para que essa criança seja aceita em sua particularidade. Essa equipe também tem a missão de ajudar as famílias a lidar com os filhos e, assim, aliviar o sofrimento de todos. É preciso deixar claro que com as crianças não existe nenhuma espécie de intervenção hormonal ou cirurgia. Apenas o acompanhamento e uma orientação destes pais. Nenhum pai ou mãe torce para ter um filho transexual na maternidade. Então, quando eles se deparam com a não aceitação de seu filho (a) com o sexo biológico, começa um sofrimento e uma sensação de culpa. Os pais costumam se perguntar o que fizeram de errado. A verdade é que eles não fizeram nada de errado. Ninguém é culpado de nada. É algo nato daquela criança.

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Foto: Arte DC

E a adolescência, é um período muito complicado para as pessoas trans?

Na infância, meninos e meninas têm corpos e o funcionamento biológico muito parecido. O problema é quando começa a puberdade, porque aí começa o desenvolvimento dos caracteres sexuais secundários. Então, em uma criança cuja identidade de gênero não bate com o sexo anatômico, a puberdade é um marco crucial no desenvolvimento da história dessa pessoa. Se eu tenho um corpo masculino, mas eu me vejo como uma mulher, isso é um horror. Se me vejo como um homem e tenho um corpo feminino – peitos, menstruo – isso é um outro horror.

E como ajudar estes adolescentes?

Existe um recurso chamado de bloqueio da puberdade. O médico usa para evitar a mudança corporal naqueles pré-púberes que a gente acredita que têm tudo pra se desenvolver como um adulto trans. Com o bloqueio, eles não desenvolvem nem pra um lado, nem para o outro. É um recurso médico que já existe para um quadro que chamamos de puberdade precoce, e é totalmente reversível. Aqui no Brasil a ideia é que se acompanhe até os 16 anos e, a partir daí, com a certeza diagnóstica, se entra com o hormônio da identidade de gênero daquela pessoa.

Quando foi que o senhor teve contato com a primeira criança trans?

No final de 2011 chegou a primeira criança/paciente no Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual do Hospital das Clínicas de SP. Ela tinha 4 anos, e desde os dois enrolava pano na cabeça, se dizia uma menina, adorava as coisas socialmente associadas às meninas. A psicóloga mandou reprimir, o pastor evangélico também. Veio a família inteira. Era um menino difícil, deprimido, irritado. Começamos a conversar, contaram toda a história. Aí, eu virei pra ele e disse: você tem boneca? Ele olhou para os pais, que disseram que ele podia responder. “Tenho”. Qual boneca? “Barbie”. Aí começou a falar sobre várias bonecas. Perguntei se ele tinha um nome de menina. Ele olhou para os pais, e me disse um nome super bonito. Eu falei: posso te chamar pelo seu nome de menina? Aí ele abriu um sorriso e foi chegando perto. A mãe tinha fotos dele. A gente foi conversando e ele foi se soltando. Chegou uma hora que víamos uma foto dele de menino e uma outra com um vestido dourado: quem é você? E ele foi direto na foto com o vestido. E quem é esse aqui? “Essa sou eu vestida de menino”. Os pais, com o apoio do médico, optaram por deixar ela ser. E ela pode ser a menina que na verdade era. No primeiro retorno, depois de três meses, chegou como uma menina. Eu não reconheci. Cabelo comprido, superafetiva, estava supercarinhosa. Cresceu como menina. Hoje tem 12 anos, está bloqueada para não desenvolver caracteres masculinos. Foi a primeira criança a mudar o nome e o sexo civil no Brasil, e está feliz. O que é preciso compreender é que essas crianças e adolescente existem. Temos que, de alguma forma ampará-los e facilitar a vida deles.

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