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13 Reasons Why: O que Albert Camus diria a Hannah Baker?

20/04/2017:

 

Por Rafael Alves

 

13 Reasons Why, -série lançada pelo Netflix dia 31 de março — pegou o trem do Hype: só se fala nela nos últimos dias e semanas.

A série foca em Clay Jensen, estudante da High School — nosso ensino médio — que recebe uma caixa com sete fitas cassete gravadas por Hannah Baker, aluna que teria cometido suicídio recentemente.

Nas fitas Hanna explica para treze pessoas como elas haviam desempenhado um papel em seu suicídio, apresentando treze razões que a teriam motivado a cometê-lo.

Apesar de tratar de um tema complexo e que em nossa sociedade ainda é considerado um tabu, o enredo trata não apenas sobre suicídio, mas também de temas como bullying e o modo como o mesmo é visto e ignorado em nossa sociedade, de modo que nós aqui do Cinesofia resolvemos colocar o assunto em pauta, trazendo alguns dados sobre o assunto além da resposta que Albert Camus, filósofo argelino, daria a Hanna Baker.

 

Sobre o suicídio e formas de evitá-lo.

De acordo com o site das Nações Unidas, em 2016 uma pessoa cometeu suicídio a cada 40 segundos no mundo; um número absurdamente alto. Segundo dados obtidos em 2012 da agência da Organização Mundial da Saúde — OMS — , o suicídio é segunda principal causa de morte entre jovens com idade entre 15 e 29 anos, sendo que 75% dos suicídios ocorrem entre países de média e baixa renda. Em 2012, o Brasil por exemplo, segundo reportagem do G1, era o oitavo país em número de suicídios: 11.821 mortes — sendo 9.198 homens e 2.623 mulheres (taxa de 6,0 para cada grupo de 100 mil habitantes). Para um efeito comparativo, a Índia possui 258 mil óbitos por suicídio, EUA 43 mil e Japão 29 mil.

 

Infelizmente, a tendência é de alta de casos de suicídio: entre 2000 e 2012 foi constatado um aumento de 10,4% no número de mortes.

A OMS ainda alerta para o fato de que para cada suicídio, há de se refletir sobre aqueles que tiveram suas tentativas de tirar a vida frustradas, ou que simplesmente falharam, o que indica um preocupante cenário. “Trata-se de um grave problema de saúde pública; no entanto, os suicídios podem ser evitados em tempo oportuno, com base em evidências e com intervenções de baixo custo”, disse a OPAS/OMS.

 

Há de se apontar também o perfil de pessoas vulneráveis ao suicídio. Embora os mais jovens sejam um grupo atingido pelo problema, a relação entre distúrbios suicidas e mentais como por exemplo a depressão e o alcoolismo ou dependência química só é bem estabelecida em países de alta renda — como Japão e EUA — ao passo que em países como o Brasil ou Índia, há um grande número de suicídios registrados por casos como dificuldade em lidar com os estresses da vida, como por exemplo problemas financeiros ou fim de namoros. Também é válido ressaltar que as taxas de suicídio entre grupos vítimas de discriminação de alguma forma — como refugiados e migrantes; indígenas; lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e intersexuais (LGBTI); e pessoas privadas de liberdade — constituem um problema que precisa ser posicionado e refletido seriamente.

 

As formas de lidar com a questão do suicídio são diversas, todas elas de baixo custo e envolvem ações preventivas, como desmistificar alguns conceitos sobre o caso — quem fala não faz; não se deve perguntar se a pessoa vai se matar; só os depressivos clássicos se matam — ; praticar a empatia com pessoas que atravessam situações de risco; buscar ajuda médica especializada, ajudando tanto o paciente, quanto as pessoas próximas a ele a perder o medo do uso de antidepressivos — fundamentais no tratamento de potenciais suicidas de acordo com o psiquiatra Rubens Pitliuk, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo — ; procurar os procurar os Centros de Apoio Psicossocial (CAPS), onde é possível marcar uma consulta com um psiquiatra ou psicólogo.

Além de todos esses passos, existe o Centro de Valorização da Vida (CVV), fundado em 1962 em São Paulo, que faz um apoio emocional e preventivo do suicídio pelo número 141. A ligação é gratuita.

 

Sobre 13 Reasons Why

Pablo Villaça, crítico de cinema escreveu sua crítica nada elogiosa sobre a série para o site Cinema em Cena, onde condena a romantização do suicídio, bem como a potencialização da angústia sofrida durante a adolescência. Diz Villaça:

 

o pior é perceber como a série assume um caráter perigoso ao alimentar uma fantasia adolescente tragicamente comum: a do suicídio como forma de vingança, como recurso para “punir” aqueles que nos injustiçaram (como já descrevia Karl Menninger em 1933). Através de suas fitas, Hannah torna-se, em essência, a protagonista da vida de todos nelas mencionados, transformando-se no foco absoluto de suas conversas e pensamentos — e, considerando o público-alvo do livro e da série, comprovadamente mais susceptível ao efeito Werther (suicídios cometidos sob inspiração de exemplos famosos), a irresponsabilidade dos realizadores torna-se ainda mais reprovável.
 

Além de apontar problemas no roteiro em si — como a culpabilização de alguns personagens como Sr. Porter, incluído na fita por não ter despertado nela o desejo de viver ou de Sheri citado por ter derrubado uma placa de “Pare” sem ter informado imediatamente a polícia — Villaça questiona o potencial da série para desestabilizar aqueles que passam por algum tipo de situação delicada e consideram a opção do suicídio.

 

Diversos psicólogos e psiquiatras relataram via Twitter ou Facebook para os problemas da série, exatamente por tratar de um tema tão difícil e delicado sem a profundidade que o problema exige.

 

Isso me faz questionar a ideia equivocada de tratar o cinema ou as séries, bem como seus roteiristas, produtores, atores e diretores como gênios por debaterem mazelas sociais. Antes de 13 Reasons Why, outra série ganhou destaque por tratar de temas complexos, Black Mirror, ao refletir e abordar a relação humana com a tecnologia. Porém, assim como em 13 Reasons Why, o faz de modo superficial, porém sem riscos tão grandes, devido aos temas trabalhados.

 

Esquecemos porém que antes dessas séries todas, há uma infinidade de filósofos, sociólogos, historiadores e etc, debatendo e escrevendo sobre esses assuntos. Em Black Mirror, a resposta para o primeiro episódio — o famigerado “episódio do porco” — se encontra em Nietzsche.

 

O episódio onde os soldados enxergam seus inimigos como monstros, graças a um implante, é muito melhor compreendido se você tiver lido o conceito de ideologia em Marx.

E no caso de 13 Reasons Why, toda a série pode ser entendida através de Albert Camus e sua obra, Mito de Sísifo.

 

O que Albert Camus diria a Hannah Baker?

Camus inicia seu livro da seguinte forma:

 

Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, aparece em seguida. São jogos. É preciso, antes de tudo, responder.
 

Ou seja, de acordo com Camus, a única grande questão da Filosofia — e talvez da humanidade — é responder se a vida vale ou não ser vivida.

 

O autor expõe sua visão sobre o tema, argumentando, entre outras coisas, sobre o absurdo que é a vida cotidiana: nascer, crescer, estudar, se formar, trabalhar de segunda a sexta, das oito as dezoito, as vezes sábado, as vezes domingo, jogar bola, assistir gente jogar bola, comer churrasco, visitar parentes, beber de vez em quando, conversar sobre o preço do tomate, comprar casa, pagar casa, comprar um carro, trocar de carro, adotar um cão, criar um filho, ficar velho, se aposentar, perder cabelos e morrer.

 

Qualquer um, com um mínimo de consciência, se pergunta por que e para que tudo isso, e diante do vazio da resposta, aparece algo semelhante ao que Camus chama de absurdo.

 

O absurdo nasce de nossas tentativas de dar algum tipo de sentido ao que não há sentido, porque, diz Camus, ao fim, não há. Estamos diante de uma espécie de abismo, onde não conseguimos ter uma resposta exata, para além da dúvida, sobre o motivo de tudo que nos cerca.

 

Obviamente a religião, com toda sua importância, oferece algum tipo de resposta, mas ela, argumenta Camus — e não somente ele — depende de uma crença baseada em experiências pessoais e não replicáveis.

 

De tal modo que então, diante deste cenário, resta a opção da revolta. Mas a revolta entendida como metáfora.

 

A revolta como consciência de nossa condição, sem a resignação que deveria acompanhar a consciência de uma vida absurda e sem sentido, pois o absurdo maior é o aceitar a morte, enquanto recusar o absurdo é se ver diante do vazio e então decidir preenchê-lo.

 

Se deparar diante de uma vida que se apresenta sem significado e criar um significado a ela. Dar um significado a vida que seja importante e essencial, e não se acomodar sobre esse significado, mas ao contrário, ressignificá-lo diariamente, estando aberto as opções positivas e negativas que a vida nos oferece.

 

O que Camus diria a Hannah, é que sim, a vida é um absurdo, vazia talvez, mas é exatamente ai que reside sua beleza provocativa, pois aquilo que é vazio pode ser preenchido com o que você desejar.

 

Se no momento o que você tem em mãos são experiências ruins, tristes, em um primeiro momento, não se desespere. Saiba que muitos outros também passam por experiências ruins: o soldado que perde a perna, a mulher que é estuprada, o senhor que descobre ter câncer, a vizinha que foi sequestrada.

 

Uma vez que essas experiências nos chegam, que as temos nas mãos, podemos escolher oferecer a elas um significado novo, que nos mova adiante.

Minha mãe ao descobrir que tinha câncer escolheu lutar, e isso lhe deu um significado para continuar viva e vencer a doença.

 

Meu pai quando perdeu o emprego e se viu sem ter onde morar e sem ter o que comer, não se desesperou e levou a nós, sua família, para viver na rua, mas respirou e encontrou um significado naquela situação que lhe permitisse resolve-la.

 

Minha irmã, mãe solteira de duas lindas crianças, cujo pai é foragido da polícia, encontrou um significado na tarefa dura e pesada de cria-las com bastante amor e carinho.

 

Porque minha família teve que passar por isso? Não há porque, apenas passamos. Mas durante esses momentos, encontramos algo que nos permitiu seguir em frente com nossas vidas.

 

Onde a série nos mostra o suicídio como opção, Camus apresenta o oposto e diz que não, o suicídio nunca o foi.

 

Ao contrário, é exatamente nestes momentos em que nos perguntamos o porque de nosso sofrimento e angústia que temos a oportunidade de dignificar nossa existência.

 

É difícil, não é uma tarefa a ser feita solitariamente, pois nenhum homem é uma ilha. Talvez precisemos de ajuda — de amigos, pais, parentes, médicos ou remédios — mas pode ser feita.

 

Por que repito, concordando com Camus, o suicídio nunca é uma opção.

Nunca.

 

 

 

https://medium.com/cinesofia/13-reasons-why-o-que-albert-camus-diria-a-hannah-baker-f0fc8800e624

 

 

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