Um grande amor repleto de dúvidas e desejos, uma tenra amizade ou a trajetória de um jovem descobrindo a própria identidade descrevem a história de qualquer pessoa, independentemente da sexualidade dos personagens. É apostando nesta perspectiva que muitas editoras lançam livros com temática e público-alvo LGBT.

Até recentemente, era comum ver personagens com este perfil em tramas secundárias ou tratados pelo viés do humor. Com a importância da representatividade ganhando pautas, a situação muda.

Embora ainda tidas como tabu por muitos, a indústria da literatura tem investido para que o público se habitue a estas histórias. A preocupação vai além de acompanhar uma “tendência”.

“O jovem precisa ver sua realidade nas tramas, nos personagens. Identificação é fundamental”, afirma Ana Lima, editora executiva do selo Galera, do Grupo Editorial Record.

Segundo Lima, as pessoas ainda associam qualquer padrão sexual não hetero a um comportamento promíscuo, ou, na literatura, a histórias que narrem cenas de sexo.

“Quando o assunto é gênero, principalmente homossexualidade, o que vem à mente é sexo ou pornografia, algo sujo... Puro tabu e preconceito. Os livros que publicamos com essa temática são sensíveis, bem escritos, inteligentes, e falam sobre empatia, amor, como é poderoso ser jovem e estar formando sua personalidade”.

Sexualidade e Corpo

Em Belo Horizonte, uma dupla de fotógrafos investe, há quase um ano, no projeto “Chicos”, que discute tabus do universo de homens gays, como a sexualidade, a nudez e o corpo “padrão”, ao fotografarem homens sem roupas em um trabalho artístico. Depois do sucesso na internet, tentam agora a publicação de um livro.

“A ideia é fazer um apanhado do que fotografamos e entrevistamos. Vai conter ensaios inéditos de pessoas de diversas cidades do Brasil”, conta Fábio Lamounier, um dos idealizadores.

Além dos romances gays, a editora Rocco também aposta em histórias de personagens transgênero, como “A Garota Dinamarquesa”, que virou filme

No início, a maior dificuldade era achar quem aceitasse posar nu. “Por este mesmo motivo começamos com amigos. Aos poucos, o projeto tomou forma e ficou conhecido. Agora temos vários voluntários mais distantes do nosso círculo social, o que é fantástico”, relata Rodrigo Ladeira, outro idealizador.

Nudez e homossexualidade ainda são tratadas com receio pela população. Por isso, as fotos ainda causam um estranhamento no público.

É o que “Chicos” busca romper. “O gay é aceito socialmente desde que dentro de ‘caixinhas’ padronizadas. A nudez, então, nem se fala. A ideia do projeto é ajudar na desconstrução disso”, afirma Lamounier.

Para ser publicado e chegar aos leitores, o projeto passa agora pela etapa de financiamento coletivo pelo site Catarse. A dupla precisa arrecadar R$ 80 mil até o dia 8/7. Já conseguiram R$ 21 mil pela plataforma.

Apesar do crescimento e do sucesso, romances gays ainda sofrem com boicotes e protestos

Além da função literária, os lançamentos que abordam a temática gay chegam à população com uma importante missão: retratar uma realidade.

As histórias não se distanciam do que realmente vivem os jovens em dúvida com a sexualidade, ou outros que já se “descobriram” e vivem seus romances como qualquer outra pessoa. Ademais, todo jovem hoje convive com a diversidade sexual.

No entanto, o mercado editorial ainda reage com um pé atrás ante estes lançamentos. É uma reação à parte conservadora do público leitor, que chega até mesmo a organizar boicotes e protestos on-line contra romances gays. Apesar disso, as editoras se mantém otimistas.

“Cautela, preconceito mesmo; medo de não vender, talvez. Só que fingir que não existe não adianta. Qual é o sentido de livros com casais exclusivamente heterossexuais se não é o que ele (leitor) vê no dia a dia?”, pondera a editora Ana Lima, da Record

Lançamento

Um dos autores mais festejados na Bienal do Livro de Minas em 2016, Vinícius Grossos, de 23 anos, lança, ao lado de Augusto Alvarenga, neste mês, o livro “1+1: A Matemática do Amor”, história de amor entre dois meninos editada pela Faro Editorial.

Pedro Almeida, editor responsável pela publicação do romance, acredita que o livro traz conexão com os tempos em que vivemos.

“Uma das coisas que me fez contratar o livro é a sua profunda sintonia com o nosso tempo e com a idade dos personagens. Este é um romance juvenil, que não apostou em forjar grandes clímax, pois a história da descoberta e do que eles vão fazer com a relação de amizade que vira amor cria a contínua emoção”, avalia.

 

 
 
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