DSEJ encaminha alunos homossexuais para exames médicos

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Desclassificada como uma doença mental pela Organização Mundial de Saúde em 1990, a homossexualidade continua a ser entendida pela Direcção dos Serviços de Educação e Juventude (DSEJ) como um problema. Segundo revelou ontem Leong Vai Kei, vice-directora do organismo, os alunos homossexuais são encaminhados para médicos ou psicólogos para lhes ser realizado um exame médico. Anthony Lam, presidente da Associação Arco-Íris, fala numa “prática comum” nas escolas de Macau.

 

Catarina Vila Nova

Os alunos que revelam “indícios de homossexualidade” são encaminhados pelas escolas para médicos ou psicólogos para lhes ser realizado um exame médico. A prática foi ontem assumida por Leong Vai Kei que, enquanto directora substituta da Direcção dos Serviços de Educação e Juventude (DSEJ), considerou que os estudantes não têm capacidade para avaliar a sua própria sexualidade. Anthony Lam, presidente da Associação Arco-Íris, disse ao PONTO FINAL ter conhecimento de 10 casos, ao longo dos últimos cinco anos, de alunos cuja orientação sexual foi alvo de uma tentativa de conversão por parte de conselheiros escolares. Ao explicar como é ensinada a educação sexual em Macau, Leong Vai Kei afirmou que sexo antes do casamento não é um “acto apropriado para uma senhora”.

“SE OS ALUNOS ACHAM QUE SÃO HOMOSSEXUAIS, NÓS PODEMOS TRANSFERIR O CASO PARA UM MÉDICO PARA FAZER UM EXAME CLÍNICO”

“Se [um aluno]tiver indícios desta homossexualidade, nós encaminhamos este caso para outras autoridades competentes. Se as crianças ou os alunos acham que são homossexuais, nós podemos transferir o caso para um médico ou psicólogo para fazer um exame clínico”, afirmou a também vice-directora da DSEJ, à margem de uma visita ao Centro de Acolhimento de Emergência no Pavilhão Polidesportivo do Tap Seac. Quando questionada sobre o porquê da DSEJ entender que os alunos homossexuais precisam de apoio clínico, Leong Vai Kei respondeu que “a educação só ensina e vai prevenir; quanto ao tratamento não é da nossa competência”. Para a ex-chefe do Departamento de Ensino da DSEJ, os estudantes não têm capacidade de conhecer a sua própria sexualidade: “Durante a puberdade há alunos que se dão muito bem com um aluno do mesmo sexo. Isto não quer dizer que ele é homossexual. Quem é que pode dizer que ele é realmente homossexual ou não? Não é a DSEJ nem é o próprio aluno”.

Leong Vai Kei explicou que os conselheiros escolares apenas oferecem “aconselhamento para o sucesso escolar dos alunos” e, por estes profissionais não serem formados em psicologia, a DSEJ está dotada de um manual de apoio. “Nós temos um livro de apoio que é um livro de psicologia que tem algumas descrições sobre o homossexual”, afirmou. Anthony Lam contraria estas declarações ao revelar ter conhecimento de 10 casos, ao longo dos últimos cinco anos, de alunos cuja orientação sexual foi alvo de uma tentativa de conversão por parte de conselheiros escolares. “Alguns dos conselheiros, por muitas razões, passam mensagens erradas aos estudantes. Normalmente, o objectivo final que procuram atingir é converter a orientação dos estudantes para uma que seja convencional em vez do que eles realmente são”, revelou.

“ENCAMINHAR ESTUDANTES [HOMOSSEXUAIS] PARA CONSELHEIROS ESCOLARES TEM SIDO UMA PRÁTICA COMUM”

Para Lam, esta prática do Governo não é uma novidade. Contudo, o activista disse desconhecer que as escolas estejam a enviar os alunos homossexuais para médicos para que lhes seja realizado um exame clínico, procedimento que classifica como um “excesso de preocupação”. “Encaminhar estudantes [homossexuais]para conselheiros escolares nós sabemos, e tem sido, uma prática comum, mas encaminhar os casos para psiquiatras ou instituições médicas nunca ouvimos falar. Se estivermos a falar de alunos do ensino primário provavelmente é uma acção exagerada. Se estivermos a falar de estudantes do secundário, então é ainda mais um excesso de preocupação”, declarou.

O presidente da Associação Arco-Íris não vê como preocupante que os alunos sejam encaminhados para conselheiros, por ver aqui uma oportunidade de auto-conhecimento. No entanto, o caso muda de figura quando são envolvidos médicos. “Eles estão a dar uma implicação aos estudantes, às escolas, aos pais e à sociedade que uma orientação sexual não convencional não é aceite, é errada e devia ser curada”, afirmou, recordando que “de acordo com a Organização Mundial de Saúde [a homossexualidade]já não é uma doença”, desde 1990.

“OS HOMENS NÃO GOSTAM QUE A SUA FUTURA MULHER TENHA TIDO RELAÇÕES SEXUAIS ANTES DO CASAMENTO”

Ao falar sobre a educação sexual nas escolas, Leong Vai Kei referiu, várias vezes, o que diz ser um conceito da sociedade local e também uma “questão de ética”: “Nós verificamos que os homens não gostam que a sua futura mulher tenha tido relações sexuais antes do casamento”. Sem o dizer explicitamente, a vice-directora da DSEJ deu a entender que esta ideia é transmitida às alunas durante as aulas de educação sexual. “Nós achamos que este não é um acto apropriado para uma senhora, para o corpo desta senhora como para a parte psicológica dela. Esta senhora vai enfrentar stress e os pais desta senhora também vão ter stress”, considerou a dirigente, sem nunca mencionar os homens que têm relações sexuais não estando casados.

Segundo explicou Leong Vai Kei, a educação sexual não é obrigatória nas escolas de Macau, estando algumas matérias relacionadas com o tema integradas no manual da disciplina de Educação Moral e Cívica. De resto, cabe a cada instituição decidir se, e de que forma, os seus alunos aprendem sobre educação sexual. A vice-directora da DSEJ acrescentou ainda que há uma diferença nos conteúdos tendo em conta se os alunos já tiveram relações sexuais ou não. “Se nós sabemos que os alunos já tiveram relações sexuais então temos uma educação diferente. Claro que a DSEJ vai ensinar o que alunos devem fazer e não é fazer o que eles querem. Isto é, um aluno que quer ter relações sexuais, não é através de contracepção que vai fugir às responsabilidades”, declarou.

Para Anthony Lam, estas declarações da vice-directora da DSEJ reflectem o problema do ensino da educação sexual em Macau. “A própria direcção está a apontar para o problema porque não temos um currículo de educação sexual de confiança”, afirmou o activista. O presidente da Associação Arco-Íris defende que o primeiro passo passa pela criação de uma disciplina específica e independente para abordar estes temas e, posteriormente, por uma melhor formação dos professores. “Nós precisamos de preparar melhor os professores para que eles sejam capazes de ensinar educação sexual moderna, contemporânea e medicamente correcta”, declarou.

 

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