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Recarga na bateria com Jejé de Oyá

16/07/2008:

 

Nem chapa e cruz, nem pé-rachado. Com sangue de portugueses, negros e
bolivianos, a personalidade preferida por 53,2% da população cuiabana
jamais aceitou tais denominações. “Pé-rachado era um jeito pejorativo de
qualificar os cuiabanos da zona rural. E chapa e cruz era para os
nascidos em famílias nobres. Ora, Cuiabá nunca teve nobreza, sempre foi
terra de mestiços”.

Foi com este jeito desbocado que Jejé de Oyá, vulgo José Jacinto
Siqueira de Arruda, ganhou o respeito e a simpatia da capital. Em 30
anos de colunismo social, traduziu com ironia, e um tanto de crueldade,
(quase) tudo o que movimentou o alto escalão da sociedade cuiabana.

_*Negro, pobre e homossexual*_, em sua trajetória exótica Jejé
conquistou seu espaço fazendo amigos e atemorizando inimigos. Ao saber
que fora escolhido como a “cara” de Cuiabá, o colunista se disse
surpreso e lisonjeado, mas não deixou de mostrar suas garras. “Fiquei
feliz, mas acho que cara é muito vulgar. Prefiro ser a face de Cuiabá”.

Jejé nasceu em Rosário Oeste, mas aos 4 anos de idade mudou-se para
Cuiabá. Veio com uma família adotiva, já que sua mãe biológica, que
sofria de problemas mentais, freqüentemente ameaçava sua vida. “Eles me
levaram porque minha mãe biológica tinha problemas de cabeça. Dizem que
queria me enforcar”.

Passou a ser criado no bairro da Boa Morte – onde vive até hoje – por
uma tradicional família da cidade. A mudança, além de manter seu pescoço
a salvo, também permitiu que o futuro colunista tivesse educação de
qualidade. “Numa época em que até os ricos estudavam em escola pública,
tive a felicidade de fazer uma escola particular”, lembra. “Isso foi
fundamental”.

Quando terminou o que hoje chamamos de ensino fundamental, Jejé decidiu
fazer o teste de seleção na antiga Escola Industrial de Cuiabá,
atualmente Escola Técnica Federal. “Quando a gente é pobre, aprende que
é preciso ter uma profissão para sobreviver. Então tinha algumas áreas
que me interessavam como sapataria, marcenaria e alfaiataria”, lembra.

A primeira opção foi o curso de sapataria, mas Jejé não conseguiu manter
tal escolha por muito tempo. O cheiro de cola, conta, era insuportável.
“Resolvi mudar para alfaiataria, pois, além de ser uma profissão mais
fina e chique, não tinha tanta sujeira”.

Neste curso, Jejé mergulhou com entusiasmo. No entanto, por culpa de sua
língua ferina, isso não foi suficiente para lhe garantir o diploma. “Eu
flagrei um professor da escola beijando uma colega. No outro dia, sem
pensar nas conseqüências, contei tudo para a esposa dele”, lembra o
colunista. “Ele ficou com tanta raiva que fez de tudo para me reprovar.
E conseguiu”.

A família não permitiu que o incidente prejudicasse seus estudos. Num
regime de internato, Jejé foi terminar seu curso de alfaiate na Escola
Profissional Salesiana, hoje Colégio São Gonçalo. “Era um curso difícil.
A gente tinha que decorar quase 50 pontos diferentes de costura. E não
era só alfaiataria: tinha aula de francês, latim, inglês, música e
história”.

Foi durante os cinco anos de internato entre os salesianos que Jejé
fortaleceu um sonho de criança: ser padre. “Primeiro como coroinha,
depois sacristão, meu maior desejo era seguir a carreira de sacerdote.
Achava uma opção bonita para a vida”.

Nesta época, e por conta desse sonho, um novo incidente quase joga por
terra o esforço do estudante, logo no último ano de curso. “Estava
sozinho na igreja, vesti as roupas que o padre usava na missa solene e
cometi um sacrilégio: comecei a rezar a missa em latim. Estava todo
empolgado quando o padre abriu a porta e me pegou. Quase fui expulso”.

Foi só um susto. Querido por todos no colégio, Jejé recebeu apenas uma
advertência. Formou-se alfaiate em 1954. “Ainda continuei um tempo no
colégio, fazendo serviço de costura. Fazia as roupas dos padres,
batinas, túnicas, chapéu e capas. Até dom Aquino usou uma capa feita por
mim”.

Nesta época, a vontade de seguir o sacerdócio já enfraquecia, assim como
seu interesse pelo ofício aprendido na escola. “Fui enjoando da costura
e decidi fazer outra coisa. Procurei meu irmão de criação, que
trabalhava numa empresa pública, e arrumei uma vaga como contínuo”.

No serviço público, Jejé permaneceria até 1994, mas o que caracterizou
sua vida foi mesmo o trabalho como colunista social. “Essa idéia de ser
colunista surgiu no final dos anos 60, quando comecei a freqüentar
festas, conhecer lugares e pessoas. Foi uma conseqüência natural”.

Era a época dos grandes bailes, em clubes populares como o Operário e
elitistas, como o Feminino. Neste último, o futuro colunista sofreu com
a discriminação. “O clube Feminino tinha tanto preconceito que acabou
sendo comido pelos cupins. Eu só podia ir às festas se ficasse sentado.
A diretora do clube não deixava um negro dançar junto com os outros”.

Decidido a escrever sobre o que via e ouvia nas festas, Jejé descobriu
uma maneira de driblar o preconceito. “Se usasse meu nome verdadeiro, o
público não ia dar crédito. Resolvi então criar um personagem”, conta.

Foi assim que nasceu o colunista Dino Danuza, dono de um estilo áspero e
desbocado que logo ganhou a simpatia dos leitores do jornal “Social
Democrático”. “Durante algum tempo, as pessoas que me encontravam nas
festas nem sabiam que eu era o colunista. Era meu disfarce”, revela.

O segredo durou pouco, mas serviu para que Jejé garantisse seu espaço
entre os colunáveis cuiabanos – mesmo aqueles que não toleravam sua
presença. “Quando minha coluna fez sucesso, começaram a me respeitar
mais. Só implicavam um pouco com as minhas roupas”.

Uma de suas marcas registradas, Jejé atribui seu jeito espalhafatoso de
vestir ao antigo sonho de ser padre. “Eu uso o estilo bizantino, como
para satirizar aquele desejo. As pessoas que não entendem é que
criticam”, explica.

Com o tempo, Dino Danuza deu lugar ao personagem mais famoso do
colunismo mato-grossense. Jejé de Oyá, em seus 30 anos de imprensa, teve
sua coluna publicada em diversos jornais da capital e do interior, entre
eles a “Folha Mato-grossense”, a “Tribuna Liberal”, “O Estado de Mato
Grosso” e o Diário.

“Viajei muito, conheci muitas pessoas e fui fazendo amizades, não só com
os cuiabanos tradicionais, mas com os que vieram de outros estados. É
por isso que hoje eu conheço todo mundo”, conta.

Tanta experiência fez do colunista uma espécie de arquivo vivo da (má)
conduta das famílias cuiabanas. “Se me perguntarem sobre qualquer
família daqui, eu posso dizer tudo de bom e de ruim que já aconteceu com
ela. Muita gente tem medo de mim por causa disso”.

Um livro de memórias, afirma Jejé, seria uma sentença de morte. “Se
tentasse colocar no papel tudo o que sei sobre essa gente, no primeiro
parágrafo eu já estaria morto. Tive muitos amantes que hoje são pais de
família, com esposa, filhos e netos”.

Mantendo sua coluna semanal em dois jornais de Cuiabá e um de
Rondonópolis, Jejé diz que hoje não tem mais o mesmo entusiasmo para
acompanhar os agitos da noite cuiabana. “Festa é sempre a mesma coisa:
conversar um pouquinho, dançar um pouquinho, contar piada, comer e ir
embora...fiquei trinta anos nesta vida e já estou meio enjoado. Além
disso, a idade está chegando”, admite.

Idade que ele não revela nem por decreto. “Outro dia, disse que tinha a
idade de cristo e um amigo rebateu: você já tem dois mil anos?”, brinca
o colunista que, garantem os amigos, acaba de completar 65 anos.

Mesmo desencantado com a profissão – “hoje todo mundo quer ser
colunista” -, Jejé acha que a atual sociedade cuiabana tem mais cultura
e menos preconceito. “Antigamente, era só o dinheiro que mandava e
desmandava em Cuiabá. Hoje continua assim, mas as famílias se preocupam
com outros aspectos da vida, como a arte e a cultura. Com isso, a
convivência melhorou muito”.

Ser a “face” de Cuiabá para 53,2% da população cuiabana significa um
sinal dessa mudança de ares, diz o colunista. “Eu não esperava ser
escolhido em meio a tantas outras personalidades importantes. E olha que
foi o pessoal da rua que votou em mim. É por isso que digo: se fosse
político, não iria ser eleito com o voto dos ricos, ia ganhar na
periferia”.

Enviado por Cícero Moraes

 

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