Coordenador da Prefeitura de SP entregou trios da Parada Gay para exploração ilegal por empresas

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Por Pedro Durán (pedro.duran@cbn.com.br)

A Parada Gay de São Paulo é um dos maiores eventos de ocupação do espaço público do mundo. O papel da Prefeitura é dar a estrutura para que ele aconteça. Basicamente, a Secretaria de Direitos Humanos repassa mais de R$1,6 milhão para a SPTuris, agência municipal de turismo, que contrata entre outras coisas banheiros químicos, grades de proteção e seis trios elétricos para acomodar projetos sociais, políticos e convidados. Além deles, a associação que organiza a Parada coloca na avenida mais 12 trios.

Neste ano, os trios da Prefeitura foram repassados por empresas privadas sem licitação, chamamento público ou qualquer contrapartida para a cidade.

A ordem partiu do coordenador municipal de políticas LGBT, Ivan Santos Batista.

As empresas que administraram os trios, por sua vez, venderam cotas de patrocínio de valores que variaram de R$ 5 mil a R$ 15 mil e limitaram o acesso para convidados. As logomarcas de empresas foram exibidas nos carros alegóricos sem que a Prefeitura ganhasse um centavo sequer.

O diretor artístico da Parada Gay, Heitor Werneck, conta que a ação de Batista atrapalhou na arrecadação de apoio para o próprio evento.

“A Parada é um produto em que a gente corre muito procurando parcerias de pessoas que sejam amigas e que tenham essa relação de apoio a GLBT e há essa contaminação de uma pessoa corrupta, ilícita, déspota, aproveitando de um poder e fugindo de uma instrução que é clara: não se pode comercializar e nem ceder para ninguém”, diz ele.

O oitavo trio a desfilar foi cedido por Ivan para o canal e loja virtual “Ezatamentchy”, criado por Estevão Delgado. Nele, cinco empresas exibiram a logomarca como apoiadoras e ganharam acesso à parte interna do trio. As cotas foram de até R$ 15 mil. O proprietário do restaurante Castro Burger, um dos patrocinadores, conta que em vez disso fez uma permuta. Luiz Felipe Granata revela que achava que se tratava de um negócio legal.

“Na verdade o Estevão que é do canal ‘Exatamentchy’ nos procurou porque ele gostaria de fazer um esquenta em forma de café da manhã. O canal tinha um trio na parada e em troca do café da manhã ele fez posts no Instagram e divulgou nosso logo junto do material de convite de divulgação que estaria envolvido junto do trio, como se fosse um apoiador. Como eu sei que aquele carro é público? Ou se ele é pago, ou não é pago. Aí não cabe a mim”, diz ele.

Os patrocinadores que pagaram, depositaram numa conta no nome de uma empresa aberta por Gustavo Henrique Igor da Silva, produtor do canal. A sede é em um condomínio residencial em Americana, a mais de 130km de São Paulo.

Estevão Delgado não quis gravar entrevista. Confirmou, apenas que recebeu o trio de Ivan Santos Batista e que usou o dinheiro que recebeu das empresas apoiadoras para pagar seguranças, transporte e atrações.

Já o terceiro trio foi cedido para o canal TV Papo Mix, dirigido por Emerson Marcelino. Ele conta que combinou com o coordenador da Prefeitura que eles teriam controle de acesso ao trio e 40 pulseiras de acesso para convidar artistas e donos de casas noturnas.

“O acordo com o Ivan é o seguinte: como nós somos uma TV que gera conteúdo pra internet, normalmente a gente tenta receber um convite seja do Ivan ou da Parada, de quem for pra gente ter um espaço pra gerar conteúdo e mostrar como é a Parada. Dentro disso apareceu essa possibilidade de a gente estar num veículo participando da Parada, documentando a Parada, sem correr o risco principalmente de estar no meio da Avenida Paulista e ser roubado, né?”, diz.

O favorecimento de empresas privadas na Parada Gay sem critérios e sem contrapartida não é novidade para o alto escalão da Prefeitura de São Paulo. A ex-secretária de Direitos Humanos, Eloísa Arruda, enviou dois ofícios pedindo a demissão do coordenador LGBT Ivan Santos Batista. Um no dia 2 de julho e outro no dia 23 de julho. Os pedidos foram para o gabinete do prefeito Bruno Covas. Sem a exoneração do subordinado, ela protocolou no dia 2 de agosto um pedido para a Controladoria investigar o caso. Na semana seguinte ela foi demitida.

Procurada pela CBN, Eloísa disse que diante das irregularidades solicitou e reiterou o pedido de demissão do funcionário.

Nessa terça o promotor Wilson Tafner, da área de Patrimônio Público do MP decidiu instaurar um inquérito civíl para investigar o caso por suspeita de enriquecimento ilícito e prejuízo aos cofres públicos.

Ivan Santos Batista não quis se manifestar. Disse apenas que desconhecia as denúncias.

A Prefeitura informou que a Controladoria Geral do Município apura a conduta do servidor, mas os detalhes do procedimento não podem ser divulgados até a conclusão dos trabalhos, quando serão tomadas todas as medidas cabíveis.

 

http://cbn.globoradio.globo.com/media/audio/205639/coordenador-da-prefeitura-de-sp-entregou-trios-da-.htm

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