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A imposição sexual

03/04/2013:

 

Drauzio Varella

 

Desejos sexuais percorrem circuitos de neurônios que fogem do controle consciente.
Nos anos 1960, época em que os homossexuais ousaram emergir das sombras nos grandes centros urbanos, os estudiosos, surpresos com tantos homens e mulheres que assumiam a homossexualidade publicamente, imaginavam que a questão teria caráter puramente comportamental. O termo “orientação sexual” se tornou tão generalizado que se infiltrou nos textos médicos, nos livros de psicologia e acabou aceito com orgulho pela própria cultura gay.

 

Essa visão, no entanto, jamais explicou a existência da homossexualidade em todas as culturas conhecidas, nem a precocidade de sua instalação definitiva em meninos e meninas muito antes do que costumamos chamar de idade da razão, nem o fato de que a maioria da população é heterossexual sem ter sequer cogitado a opção contrária.


Insatisfeitos com essa interpretação comportamental e entusiasmados com os avanços obtidos pelo Projeto Genoma a partir dos anos 1990, os geneticistas têm procurado identificar a influência dos genes envolvidos na orientação sexual.

 

Em 2005, o debate dos genes versus ambiente ganhou dimensões inesperadas com a publicação na revista “Cell” de uma pesquisa impecavelmente conduzida na Academia Austríaca de Ciências, com drosófilas, as mosquinhas que sobrevoam bananas maduras, modelos de tantos estudos genéticos.

 

Há vários anos foi descrita nas drosófilas a existência de um gene-mestre (fru), capaz de orquestrar um grupo de genes encarregado de coordenar um circuito de 60 neurônios, responsável pela condução dos estímulos sexuais masculinos ou femininos. Basta lesar um desses neurônios para que o inseto não consiga se acasalar adequadamente.

 

O ato sexual nas drosófilas obedece a um ritual bem conhecido: quando se aproxima da fêmea, o macho encosta a perna na dela, toca uma música com as asas para enternecê-la, lambe o sexo da fêmea quando a música termina e, somente depois, copula com ela durante 20 minutos, rigorosamente.

 

No trabalho citado, os austríacos transplantaram a versão masculina do gene fru das drosófilas machos para um grupo de fêmeas. E, num experimento paralelo, a versão feminina do mesmo gene para um grupo de machos.

 

Para espanto geral, as fêmeas que receberam a versão masculina de fru, quando levadas à presença de outra fêmea, adotavam o ritual masculino: tocavam a perna da outra, usavam as asas para a música sedutora e tudo mais. Quando colocadas em ambientes com moscas de ambos os sexos, elas perseguiam sexualmente outras fêmeas sem dar a mínima para o sexo oposto.

 

Ao contrário, quando a versão feminina de fru foi transplantada para os machos, eles se tornaram mais passivos, desinteressados pelas fêmeas e atraídos por outros machos.
No final os autores concluíram: “Os dados mostram que comportamentos instintivos podem ser especificados por programas genéticos da mesma forma que o desenvolvimento morfológico de um órgão ou de um nariz”.

 

Há muito sabemos que comportamentos complexos em homens e outros animais costumam acontecer sob a influência direta ou indireta de diversos genes. Geralmente são tantos que nos referimos a eles como “constelações de genes”. Por isso, a pesquisa dos austríacos causou comoção nos meios científicos e na imprensa leiga (foi matéria de primeira página no jornal Folha de São Paulo e do “New York Times”, por exemplo).


Gero Miesenboeck, professor de biologia celular em Yale, comentou os achados com as seguintes palavras: “Essa é uma demonstração soberba. Pela primeira vez fica demonstrado que um único gene é capaz de controlar um comportamento de alta complexidade. É intrigante a possibilidade de que outras características comportamentais, como reagir com violência às frustrações, fugir quando assustado ou rir quando alegre, podem estar programadas nos cérebros humanos como produtos da herança genética”.

 

Embora não haja certeza de que em mulheres e homens exista um gene equivalente ao gene fru da drosófila, é preciso lembrar que a genética humana sempre se valeu das drosófilas para elucidar nossos mecanismos básicos.

 

É muito provável que o comportamento sexual esteja sob o comando do que chamamos de programa genético aberto.

 

Programas abertos são aqueles em que o catálogo de instruções impresso no DNA admite, dentro de certos limites, a inclusão de informações colhidas por aprendizado, condicionamento ou outras experiências. Por exemplo, se vedarmos o olho esquerdo de uma criança ao nascer, ao retirarmos a venda três meses mais tarde ela terá perdido definitivamente a visão desse olho, embora enxergue normalmente com o outro. O programa genético responsável pela distribuição dos neurônios da retina no cérebro precisa interagir com a luz para incorporar as informações necessárias ao desenvolvimento pleno da visão.

 

Na biologia moderna, o espaço para o velho debate genes versus ambiente está cada vez mais exíguo. O homem é resultado de uma interação complexa entre o programa genético contido no óvulo fecundado e o impacto que a experiência exerce sobre ele. Como disse o mestre Ernst Mayr, um dos grandes biólogos do século passado: “Não existe atividade, movimento ou comportamento que não seja influenciado por um programa genético”.
Considerar a orientação sexual mera questão de escolha do indivíduo é desconhecer a natureza humana.

 

 

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