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O que pode uma parada?

14/06/2012:

 

Se uma parada pode muito, então é indispensável potencializar sua dimensão política.

 

por Fabiano Camilo  -- foto de @fefo_miranda --

 

Una-se à intifada queer!
Fala do filme The Raspberry Reich, de Bruce LaBruce, modificada.*

 

No dia 28 de junho de 1997, data do 28º aniversário do início da Revolta de Stonewall, em Nova Iorque, duas mil pessoas percorreram a avenida Paulista, promovendo a 1ª Parada do Orgulho GLT de São Paulo. Um público bastante pequeno, se comparado ao da 4ª edição, em 2000, que reuniu cem mil pessoas, um crescimento de 4.900%. Menor ainda em comparação com o das edições posteriores. Quando o evento completa quinze anos, parece-me essencial recordar a coragem e a beleza do gesto daquelas duas mil pessoas que, numa tarde de sábado, caminharam em direção à praça Roosevelt, sob o lema “Somos muitos, estamos em todas as profissões”. Tão pouco. Tanto.

 

Na prática, o que fizeram foi simples, foi pouco: organizaram-se; reuniram-se; caminharam, por curtas horas, erguendo cartazes e faixas, gritando palavras de ordem. Todavia, no imaginário – não se derruba as bastilhas reais se antes não tiver sido derrubadas as bastilhas imaginárias, não menos reais –, o que realizaram foi complexo, foi muito: um pequeno grupo, mas que em 1997 talvez não parecesse pequeno, de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais ousando afirmar quem eram e reivindicando direitos, na principal avenida do país e em plena luz do dia. O impacto da parada de São Paulo pode ser avaliado pelo seu próprio sucesso, pela quantidade de paradas que inspirou, pela contribuição ao aumento da autoestima de uma imensa parcela da população glbt, tanto a que participa como a que não participa do evento, e pelo aporte ao processo de ampliação da visibilidade dos indivíduos não heterossexuais, com uma consequente expansão do respeito à diversidade de gênero e à diversidade sexual.

 

É importante ressaltar as conquistas sociais que foram lentamente alcançadas, iniciadas na década de 1990, por dois motivos. Primeiro. A reação conservadora, que a população glbt e os heterossexuais comprometidos com os direitos humanos e a questão queer sentimos, não tem se verificado com intensidade suficiente para comprometer essas conquistas, que podem ser apropriadas como orientações no movimento ao horizonte de um mundo outro. Segundo. Justamente a reação às conquistas pode impelir uma reflexão acerca da forma e do significado das paradas glbt’s hoje. Entretanto, não me proponho a empreender essa reflexão, a qual somente pode ser um projeto coletivo; tenciono apenas escrevinhar breves comentários.

 

Desde o momento em que as paradas das capitais passaram a atrair um elevado número de pessoas, sobressaindo uma dimensão marcadamente festiva, convertendo-se em eventos midiáticos, as críticas à frivolidade e à irrelevância política do evento tornaram-se correntes. Essas críticas incorrem em um equívoco e também em um esquecimento ou uma mera ignorância. Supõem que o festivo e o político se encontram em oposição, ou melhor, em um antagonismo irredutível. Ambas as dimensões não demoraram a se entrecruzar nas primeiras paradas, nos Estados Unidos, durante a década de 1970 e a primeira metade da década de 1980, como evidenciam imagens da época. As paradas então denominadas gays foram construindo, aos poucos, uma forma diferente de manifestação política.

 

Consoante a interpretação, meu texto pode ser considerado uma crítica. Contudo, de ordem distinta, advirto. Duas considerações, pois. (1) As paradas podem ser criticadas, simplesmente porque não há nada que não possa ser pensado, que não possa ser objeto de reflexão e de crítica. Nem toda crítica enuncia, necessariamente, uma condenação moral ou homofóbica. A pressuposição em contrário consiste em uma interdição do debate. Pensar criticamente as paradas é fundamental para assegurar que se renovem continuamente, sempre de maneiras que contribuam para a transformação social. (2) Não pretendo denegar a dimensão festiva das paradas, a qual defendi anteriormente.

 

A acusação talvez mais recorrente contra as paradas é a de que viraram carnavais fora de época. Com efeito, as diferenças entre as primeiras paradas e as atuais são marcantes. No decurso do tempo, inevitavelmente se modificariam, como, de fato, se modificaram. A problemática concernente à festividade está relacionada exatamente a seu aspecto carnavalesco. Uma dupla tarefa se apresenta, assim. Redimensionar o festivo, radicalizando o carnavalesco das paradas, potencializando-o para que possa conduzir a um questionamento incisivo dos valores e das normas sociais, para que possa, durante as horas que duram o trajeto, virar o mundo de ponta-cabeça e, em um movimento dialógico, redimensionar igualmente o político, radicalizando-o também. Concomitantemente, operar o redimensionamento do político, mediante a ampliação da agenda e a radicalização do discurso, efetuando, em um movimento idêntico ao anterior, a redimensionação do festivo. Não se trata, portanto, de estabelecer uma coexistência harmoniosa do festivo com o político, mas de aprofundar uma relação dialógica – o político no festivo, o festivo no político –, em que ambas as dimensões se recriam e recriam uma a outra, simultaneamente.

 

Há um risco presente na festividade, a possibilidade de que se dissocie do político ou de que o político se reduza demasiado, o que acarretaria a reificação das paradas, de eventos políticos e festivos a espetáculos, atrações midiáticas do capitalismo tardio, entretenimento para as massas. É somente no espaço público, na arena da ação política, não no palco do espetáculo massificante, que as disputas, os confrontos podem ocorrer.

 

As distâncias e as fissuras no interior das próprias paradas não podem ser ignoradas. É preciso não sobrevalorizá-las, esquecendo suas contradições e seus limites. A celebração da diversidade é atravessada por relações de poder, por todas as demais diferenciações discriminatórias, excludentes e opressoras da sociedade brasileira. Muitas das pessoas reunidas nas paradas não são discriminadas em decorrência apenas de sua identidade de gênero ou de sua identidade sexual. Não nos iludamos, essas diferenças tampouco convivem equilibradamente nos eventos, o que é um indício dos problemas estruturais que se (re)produzem cotidianamente e que exigem enfrentamento.

 

Essas diferenciações se justapõe às oposições e hierarquizações entre os gêneros e as sexualidades, como, por exemplo, a dominação masculina tradicional, do homem sobre a mulher, mas também a dominação masculina que se exerce por gays masculinizados sobre gays efeminados ou por lésbicas feminilizadas sobre lésbicas masculinizadas. (O último caso também é um exemplo de dominação masculina, na medida em que envolve a imposição às desviantes da representação do feminino que o imaginário sexista define como a natural.) Estas dominações são estruturais, tanto como aquela, efetuam-se independentemente do agir consciente de um indivíduo em relação a outro, ou seja, não ocorrem somente em decorrência de discriminações que pessoas glbt’s possam praticar umas contra as outras, realizam-se também quando, na sociedade sexista e heteronormativa, um homem gay masculino e uma mulher lésbica feminina recebem um tratamento divergente daquele dispensado a um gay efeminado e a uma lésbica masculinizada.

 

Às diferenças na diferença é necessário garantir maior visibilidade, permitindo que se distinga a desigualdade e a incoerência, a multiplicidade dos elementos que compõem o que parece homogêneo. É necessário desestabilizar o que parece estável. Lembremos que a maioria das pessoas, quando pensam paradas glbt’s, pensam paradas gays. As paradas precisam descentralizar, postular também a ex-centricidade, no universo da sociabilidade glbt, da condição homossexual masculina.

 

Enfatiza-se, em geral, o fato de as paradas serem um momento de afirmação individual, de construção de uma autoestima, de demonstração de orgulho. Talvez se possa deslocar parcialmente a ênfase desta dimensão individualizante e ressaltar uma compreensão das paradas como experiência coletiva, em que uma multidão de corpos pulsantes e moventes, em êxtase, pode transbordar e se entregar à construção de novas formas de relacionamento e de afeto. Um momento que desvelaria não apenas a existência de indivíduos, mas a potência de uma coletividade para agir no mundo. Contra as diferenciações discriminatórias, excludentes e opressoras, as paradas como um exercício de um possível, uma política da alteridade fundada nos afetos.

 

Continue cada um participando das paradas pelos seus diferentes motivos. Se são as paradas eventos libertários, não é possível que seja de outro modo. Não obstante, o que pode uma parada? Se estivermos convencidos – eu estou convencido – de que pode muito, então é indispensável potencializar sua dimensão política. A potência das paradas estará relacionada às repostas que formos capazes de conferir à pergunta: qual a finalidade das paradas? – entendida não como: quais são os objetivos das paradas? – mas como: quais objetivos desejamos que as paradas tenham? Não há política possível destituída de imaginação e a política é impelida pelo desejo.

 

-- foto de @zlauletta --

 

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PS
: é fácil criticar, todos sabemos. Apresentar alternativas é difícil. Lamentavelmente, não sou uma pessoa imaginativa. Julgo que a Marcha da Maconha e a Marcha das Vadias, bem como a tradicional Caminhada Lésbica de São Paulo, que acontece às vésperas da Parada do Orgulho LGBT, podem oferecer pontos de entrada – recordam, em parte, os primórdios das paradas glbt’s brasileiras – para se pensar modos pelos quais poderia ser empreendida uma maior politização das paradas atuais.

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*
A fala original, em inglês, é: “Join the homosexual intifada!”.

 

Blog: Amalgama

 

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