Como a morte violenta de um jovem gay nos EUA mudou a visão da sociedade americana sobre homofobia

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Cinzas de estudante foram depositadas hoje na Catedral de Washington, uma das mais importantes do país. O assassinato, há 20 anos, deu origem à Lei Matthew Shepard, que pune crimes de ódio contra pessoas LGBT

WASHINGTON – Em outubro de 1998, um assunto dramático dominava as conversas de famílias americanas: o assassinato de um estudante gay de 22 anos, amarrado a uma cerca e torturado no estado do Wyoming, na “América profunda”. Matthew Shepard foi morto de forma tão violenta que seus pais só conseguiram reconhecê-lo pelo aparelho que ele usava nos dentes.

O crime bárbaro, de acordo com os próprios acusados, foi motivado unicamente pelo fato de o rapaz ser homossexual. E tornou-se símbolo da luta pelos direitos civis dos gays nos EUA. Em 2009, foi aprovada a Lei Matthew Shepard, que determinou punição severa e qualificação como crime de ódio para os cometidos contra indivíduos por conta de sua orientação sexual. No Brasil, a criminalização da homofobia, uma das bandeiras do movimento LGBT, está na pauta do Supremo Tribunal Federal (STF). Uma ação da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABGLT), em tramitação desde 2012, deverá ser discutida no dia 14/11.

Nesta sexta-feira, uma cerimônia foi realizada em homenagem ao jovem na Catedral Nacional de Washington, uma das mais importantes do país — é lá, por exemplo, que são realizadas cerimônias após a posse dos novos presidentes dos EUA. As cinzas de Shepard foram oficialmente entregues à catedral, e, para acentuar o simbolismo, o serviço foi conduzido pelo primeiro bispo protestante abertamente gay da Igreja Episcopal, Gene Robinson. Mais de 2 mil pessoas assistiram à celebração no local, que teve até transmissão ao vivo pela internet.

Judy and Dennis Shepard, os pais de Matthew, durante a cerimônia realizada nesta sexta-feira, 26 de outubro, na Catedral nacional de Washington Foto: CATHAL MCNAUGHTON / REUTERS
Judy and Dennis Shepard, os pais de Matthew, durante a cerimônia realizada nesta sexta-feira, 26 de outubro, na Catedral nacional de Washington Foto: CATHAL MCNAUGHTON / REUTERS

Outra iniciativa foi a doação, também nesta sexta-feira, de objetos pessoais e do diário de Shepard ao Museu Smithsonian, como registro histórico do avanço da sociedade civil americana no combate à intolerância. Em 2015, nos EUA, durante a sessão da Suprema Corte em que o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi aprovado, Shepard também foi lembrado.

— Ele tinha bandagens e pontos em todo o rosto, e ataduras em torno da cabeça, onde os golpes haviam esmagado parte do cérebro — lembrou a mãe do jovem, Judy Shepard, em entrevista à “BBC”. — Ele estava irreconhecível num primeiro momento. Um de seus olhos estava parcialmente aberto, então eu conseguia ver seus olhos azuis, e, na boca, que estava à mostra, com tubos saindo dela, era possível ver o aparelho. Foi então que eu o reconheci.

Como o crime aconteceu

Numa terça-feira, 6 de outubro de 1998, Matthew foi sozinho a um bar logo após se encontrar com colegas da Universidade do Wyoming. O encontro era para planejar a semana de conscientização LGBT no campus da instituição. Depois da reunião, o jovem não conseguiu convencer mais ninguém a ir com ele tomar uma cerveja em um bar. O calouro foi, então, só.

Uma vez dentro do Fireside Lounge, Matthew acabou conversando com dois rapazes mais ou menos da sua idade, Russell Henderson e Aaron McKinney. Segundo o xerife Dave O’Malley, do condado de Albany, que era o principal investigador do caso, a motivação para o crime esteve relacionada à orientação sexual desde o início.

— O próprio McKinney disse que ele e Russell foram ao banheiro no bar Fireside e planejaram agir como se fossem gays para tentar ganhar a confiança de Matthew. A questão da orientação sexual estava presente desde o início — contou O’Malley à “BBC”.

Pessoas que assistiram à celebração na catedral, nesta sexta-feira, choraram ao lembrar do crime bárbaro Foto: JONATHAN ERNST / REUTERS
Pessoas que assistiram à celebração na catedral, nesta sexta-feira, choraram ao lembrar do crime bárbaro Foto: JONATHAN ERNST / REUTERS

Os assassinos disseram à polícia que planejavam atrair Shepard para o carro de McKinney, para roubá-lo. Uma vez no veículo, McKinney sacou uma arma, imobilizou Shepard e pegou sua carteira, que continha US$ 20. Eles, então, dirigiram para fora da cidade por um caminho de terra que terminou em uma pradaria rochosa.

Russell Henderson usou um varal para amarrar Shepard a uma cerca de madeira. McKinney sacudiu então o jovem de forma violenta.

O xerife O’Malley afirma que o estudante foi “atingido na cabeça e no rosto entre 19 e 21 vezes com a coronha de um grande revólver Smith and Wesson”.

— A única vez que vi lesões tão dramáticas como aquelas foi em acidentes de trânsito de alta velocidade, nos quais havia fraturas de compressão extremamente violentas no crânio — contou o investigador.

A celebração na catedral foi realizada pelo primeiro bispo protestante abertamente gay da Igreja Episcopal, Gene Robinson Foto: Aaron P. Bernstein / AFP
A celebração na catedral foi realizada pelo primeiro bispo protestante abertamente gay da Igreja Episcopal, Gene Robinson Foto: Aaron P. Bernstein / AFP

McKinney e Henderson roubaram os sapatos de couro da vítima e o deixaram lá, sozinho, para morrer. Shepard ficou amarrado à cerca por 18 horas no frio intenso.

O jovem foi encontrado por uma policial que estava de patrulha, Reggie Fluty.

— Matt estava de costas, com os braços para trás. E respirava em intervalos enormes — recorda-se ela, hoje com 57 anos e aposentada.

Pessoas que assistiram à celebração na catedral, nesta sexta-feira, choraram ao lembrar do crime bárbaro Foto: JONATHAN ERNST / REUTERS
Pessoas que assistiram à celebração na catedral, nesta sexta-feira, choraram ao lembrar do crime bárbaro Foto: JONATHAN ERNST / REUTERS

Os assassinos disseram à polícia que planejavam atrair Shepard para o carro de McKinney, para roubá-lo. Uma vez no veículo, McKinney sacou uma arma, imobilizou Shepard e pegou sua carteira, que continha US$ 20. Eles, então, dirigiram para fora da cidade por um caminho de terra que terminou em uma pradaria rochosa.

Russell Henderson usou um varal para amarrar Shepard a uma cerca de madeira. McKinney sacudiu então o jovem de forma violenta.

O xerife O’Malley afirma que o estudante foi “atingido na cabeça e no rosto entre 19 e 21 vezes com a coronha de um grande revólver Smith and Wesson”.

— A única vez que vi lesões tão dramáticas como aquelas foi em acidentes de trânsito de alta velocidade, nos quais havia fraturas de compressão extremamente violentas no crânio — contou o investigador.

A celebração na catedral foi realizada pelo primeiro bispo protestante abertamente gay da Igreja Episcopal, Gene Robinson Foto: Aaron P. Bernstein / AFP
A celebração na catedral foi realizada pelo primeiro bispo protestante abertamente gay da Igreja Episcopal, Gene Robinson Foto: Aaron P. Bernstein / AFP

McKinney e Henderson roubaram os sapatos de couro da vítima e o deixaram lá, sozinho, para morrer. Shepard ficou amarrado à cerca por 18 horas no frio intenso.

O jovem foi encontrado por uma policial que estava de patrulha, Reggie Fluty.

— Matt estava de costas, com os braços para trás. E respirava em intervalos enormes — recorda-se ela, hoje com 57 anos e aposentada.

 

https://oglobo.globo.com/sociedade/como-morte-violenta-de-um-jovem-gay-nos-eua-mudou-visao-da-sociedade-americana-sobre-homofobia-23188006

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