Como é ser gay e morar na Rússia: Carta em primeira pessoa de um jornalista brasileiro

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Por Sandro Fernandes

Cheguei a Moscou em 2009, aos 24 anos, atrás de um suposto amor. O amor não vingou, mas me apaixonei perdidamente pela capital russa. Encontrei logo um novo amor e, por causa dele, passei sete anos amando a Rússia.

Amar é um verbo que na Rússia se conjuga com restrições. Lá em 2009, o meu amor, homossexual, era invisível, inexistente. Não passava pela cabeça da maioria dos russos que era possível se relacionar com uma pessoa do mesmo sexo. Essa invisibilidade era o que mais doía.

No meu primeiro ano em Moscou, dividi apartamento com um russo de 26 anos e uma russa de 23. Mas mesmo com as inúmeras indiretas que eu dava a respeito do meu relacionamento, eles não entendiam que aquele meu amigão, com que eu tomava cerveja, viajava e dormia, era meu namorado.

Até que um dia, chegou a pergunta: “Sandro, sinto que você está apaixonado. Qual é o nome da sua namorada?”. Fiquei tão surpreso com o substantivo no feminino que respondi sem titubear: “É o Dima”. O silêncio de alguns segundos parecia eterno. Mas tive sorte. Vieram muitas perguntas, gentis, sempre seguidas do famoso “nunca havíamos conhecido nenhum gay”. “Abertamente gay”, pensava eu com meus botões. Era compreensível para mim a curiosidade deles. Sair do armário ainda é ativismo no mundo – e um risco em grande parte dele.

2011. Um ano se passou e Dima e eu decidimos morar juntos, em um quarto-e-sala, com cama de casal. Os pais do Dima sabiam como era a organização do apartamento, tinham visto fotos e depois foram nos visitar. Parecia evidente que éramos um casal,mas o óbvio não era tão óbvio para eles. Dima não estava fora do armário na família e nem no trabalho. E como o assunto da homossexualidade era invisível na Rússia, nosso amor não existia – nem mesmo nas “suspeitas” alheias.

Um dia, Dima sofreu um acidente grave e ficou internado. Era inverno. Passei a semana toda no hospital, esperando notícias. Quando ele finalmente saiu do hospital, o irmão foi nos buscar de carro e, no caminho para casa, disse: “Dima, seu amigo Sandro passou a semana toda aqui. Isso sim é que é amigo”. Dima se abriu para o irmão e contou que eu era namorado dele. Surpreendentemente – para mim, pelo menos – o irmão não reagiu de maneira negativa. Apenas disse que gostava de mim e que queria que nós frequentássemos mais a casa dele, que fôssemos mais próximos da esposa e da filha. Esse sentimento de família me emocionou e deixou Dima radiante. Não havia políticas públicas de inclusão, mas os russos, principalmente jovens e das grandes cidades, pareciam se incomodar cada vez com a sexualidade das pessoas. Mas…

Tudo mudou em 2013. E para pior. Uma lei federal, apelidada pelo Ocidente de lei anti-propaganda gay, foi aprovada pelo governo russo, para proteger as crianças da influência das relações sexuais não tradicionais. Com isso, os gays, antes invisíveis no país, passaram a ser bastante visíveis. Nós nos tornamos o principal assunto da mídia e das filas de banco. E também começamos a ser alvos frequentes de agressões. No principal canal da Rússia, um canal estatal, não era incomum ver acalorados “debates” entre padres ortodoxos ultraconservadores e pessoas abertamente homofóbicas. Um grupo de jovens começou a organizar passeios para “caçar gays”. Através de aplicativos de paquera, eles encontravam rapazes gays e os agrediam. O infame tour era chamado de “safári”. Também em 2013, um jornalista russo disse ao vivo na TV que era gay. Ele foi demitido em seguida. Nos táxis ou nos trens, os russos perderam a vergonha de falar sobre LGBTs. No entanto, a visibilidade gay filtrada pela mídia russa resultava apenas em mais homofobia. O russo comum, que antes não se importava com o tema, passou a não gostar de gays. E a expressar isso muitas vezes de maneira violenta.

Foi nesse ano que o irmão do Dima parou de falar com ele. O irmão era o único da família que sabia que éramos um casal. A forte máquina de propaganda antigay da mídia estatal russa convenceu o país de que nós, gays, éramos uma ameaça ocidental para a Rússia. Até hoje, cinco anos mais tarde, o irmão não fala com ele.

https://esportes.yahoo.com/noticias/como-e-ser-gay-e-morar-na-russia-carta-em-primeira-pessoa-de-um-jornalista-brasileiro-201546585.html

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