Carta de Paris: Macron e Delon, boatos de homossexualidade ontem e hoje

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Affaire Benalla é um passo em falso do governo. Para a oposição, um affaire de Estado

Por Leneide Duarte-Plon

Leneide Duarte-Plon

O affaire Benalla  – que o executivo, ministros e deputados do La République en Marche tentam minimizar desde que o Le Monde revelou dia 18 de julho que um guarda-costas do presidente Macron fora responsável por violência física contra dois jovens durante a manifestação de 1° de maio – já tem seu lugar entre os maiores escândalos da Ve République.

Um passo em falso do governo que para a oposição já se transformou em um affaire de Estado.

Segundo algumas fontes, o jovem Alexandre Benalla, de 26 anos estava sendo preparado para organizar um futuro Service Secret do Eliseu. Revelações de cada nova reportagem levaram à abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito e de uma investigação policial e administrativa para apurar as irregularidades descobertas no exercício da função e os inúmeros privilégios de que gozava o guarda-costas do presidente.

A atual crise política é a mais grave do governo Emmanuel Macron desde sua eleição em 2017. A popularidade de quem prometeu uma “Presidência exemplar” caiu para 32%, seu nível mais baixo desde setembro de 2017, período das manifestações contra a polêmica reforma trabalhista, segundo pesquisa Ipsos divulgada na semana passada.

A primeira matéria do jornal Libération, aprofundando o que Le Monde revelara, falava discretamente de rumores que envolviam o jovem Alexandre Benalla na intimidade do casal Macron . Obviamente, os jornalistas parisienses comentavam entre eles os insistentes boatos.

Outro boato sobre um suposto caso do presidente com um homem já correra antes de sua eleição. Ele ligava Macron ao presidente do grupo público Radio France, Mathieu Gallet. Em uma frase pronunciada num discurso de campanha, Macron desmentiu ‘ser amante de Mattieu Gallet’  e atribuiu os boatos aos russos e ao jornal Russia Today.

Desta vez, depois de um longo silêncio de vários dias, diante de deputados de seu partido, reunidos para comemorar o fim dos trabalhos parlamentares antes das férias de verão, Macron assumiu toda a responsabilidade da nomeação e dos privilégios de que gozava Benalla, mas negou o salário de 10 mil euros atribuído ao guarda-costas, negou que ele tivesse um apartamento de função de 300 metros quadrados e acrescentou : “E ele não é meu amante”.

Ora, ao negar que um homem não é seu amante, um homem heterossexual diria simplesmente : “Eu sempre preferi as mulheres”. Segundo um psicanalista francês, ao evitar esse esclarecimento definitivo, o presidente deixa a questão aberta a todos os fantasmas.

De todos os textos que trataram do  affaire Benalla, o mais bem escrito e bem argumentado que li foi do linguista e ensaísta italiano Raffaele Simone, publicado no  Le Monde. O título era uma frase do texto : “ O presidente não dá a impressão de amar o povo ”.

“Quando ele decide enfim falar, ele comete um erro monumental : introduz no discurso público a questão explosiva das preferências sexuais do chefe de Estado, deixando assim livre curso a uma discussão cuja conclusão é imprevisível ”.

Se tivesse querido cortar de vez os boatos, o presidente poderia ter citado Boris Vian, que escreveu : “Quanto à imputação de pederasta, devo dizer que não o sou e lamento pois parece que é formidável”.

Raffaele Simone cita Norberto Bobbio. O filósofo italiano escreveu que a democracia deveria ser “o governo do poder público em público”. Ora, uma verdadeira democracia não pode comportar zonas de sombra com um serviço de segurança do chefe de Estado paralelo aos previstos na Constituição.

No artigo, Simone louva o que o historiador da política Pierre Rosanvallon, do Collège de France, chamou de ‘contra-democracia’ , isto é, as instâncias que servem de contra-poder ao controlar e denunciar os excessos do poder.

No caso do affaire Benalla, foi um jornal, o Le Monde, que exerceu o poder de ‘contra-democracia’, ao revelar irregularidades que o poder tinha colocado astuciosamente debaixo do tapete.

‘A contra-democracia depende somente dos cidadãos e dos instrumentos de que eles dispõem, em primeiro lugar dos quais está a mídia’.

Raffaele Simone está falando da mídia francesa e européia em geral.

Se ele conhecesse a mídia brasileira não teria tanta confiança em seu papel de vigia dos interesses da sociedade.

Alain Delon : grande ator de beleza perturbadora

Uma das tradições dos jornais franceses são as séries de grandes reportagens de verão.  

Na semana passada, o Le Monde publicou seis reportagens de duas páginas cada sobre seis dos filmes mais emblemáticos de Alain Delon, começando com  Plein soleil (O sol por testemunha), de René Clément, que não foi seu primeiro filme mas o lançou como star internacional, com apenas 23 anos.

Alguns filmes magistrais foram suficientes para afirmar o mito Alain Delon e transformá-lo numa das mais seguras atrações de bilheteria do cinema francês. Sua beleza melancólica fascinava homens e mulheres.

Nas 12 páginas da série, o crítico de cinema Samuel Blumenfeld relata as relações do ator com diretores com quem Delon fez alguns de seus melhores filmes. Com eles Delon teve relações profundas de aluno e mestre. Com Luchino Visconti, o ator fez Rocco e seus irmãos e  O leopardo , com Jean-Pierre Melville fez Le Cercle rouge ; com Henri Verneuil ,  Le clan des Siciliens .

Além desses, a série analisou o filme  L’insoumis de Alain Cavalier, que se passa durante a guerra da Argélia, e Mr. Klein, de Joseph Losey, que trata da deportação de judeus franceses em 1942, no episódio do Vélodrome d’Hiver.

Homossexualidade questionada

Alain Delon sempre foi um melancólico, ensimesmado, um homem marcado por sua infância numa cidade próxima de Paris, com um destino traçado para ser açougueiro, como o padrasto.

Aspirando a novos horizontes, aos 17 anos Alain se alistou como voluntário de Marinha na guerra da Indochina. Na volta à França, foi a sétima arte que aspirou o rosto mais bonito do cinema francês.

Esse rosto perfeito e o que ele veiculava de mistério sempre despertou uma fascinação absoluta na maioria dos diretores que com ele trabalharam. Era como se ele despertasse o homossexual recalcado em cada um deles.

Ao conhecer Alain Delon, Visconti o confirmou imediatamente como Rocco, o papel principal do filme cujo roteiro estava preparando. Sabidamente homossexual, o diretor italiano tinha uma verdadeira fascinação pela beleza animal de Alain Delon. Houve até quem dissesse que teria havido um  love affair  entre os dois. Na realidade, nunca houve. Alain preferia as mulheres.

Uma de suas mais conhecidas companheiras, a atriz Romy Schneider, amiga de Visconti com quem fez dois filmes, justificava o fascínio que o diretor italiano sentia por Delon :

“ Luchino amava Alain porque sentia nele a matéria bruta do grande ator. Ele queria formatar essa matéria, de maneira tirânica, com pretensão à exclusividade”.

Numa entrevista ao  Nouvel Observateur , em 1969, Olivier Todd interpela Alain Delon sobre rumores de uma suposta homossexualidade. A resposta do ator é sem ambiguidades :

“ Se eu tivesse tido vontade de ter aventuras com homens de que seria culpado ? Em amor, tudo é permitido. Você conhece a frase de Michel Simon : ‘Se tiver desejo por minha cabra, eu a como’ ”.

E Alain acrescenta em homenagem direta a Visconti, que o dirigiu no teatro com Romy Schneider : “ Eu me lembro da frase do personagem Putana na peça ‘Dommage qu’elle soit une putain’ : Se uma moça sente desejo e transa com o pai ou com a mãe, tanto faz”.

Sobre o ator em cena, o diretor Alain Cavalier, que o dirigiu no filme  L’Insoumis , se mostrava estupefato com tanta inteligência instintiva para se movimentar diante da câmera :

“Seu movimento no enquadramento era animal e controlado. Ele sabia perfeitamente o tamanho do plano, quando ele saía do campo visual, quando voltava, como se inscrevia na profundidade. Ele se apropriava do espaço como um animal que caça, que espera ou que faz amor. Isso era ainda mais visível porque seu personagem era alguém que estava sendo procurado e vivia se sentindo perseguido. E isso a tal ponto que eu tinha a impressão de enquadrar não um animal de palco mas um verdadeiro animal, com o corpo perfeitamente proporcionado e uma constante perfeição, digna do cavalo que não pode dar um passo em falso ”.

Com uma resposta inteligente e clara, Alain Delon dissipou as dúvidas.

Com uma frase ambígua, Emmanuel Macron abriu o flanco para novos rumores.

 

 

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